ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA  nasceu em Sete Barras/SP a 17 de novembro de 1929, filha de João Lucas Ferreira e Olinda de Souza Ferreira. Advogada, parapsicóloga e formada em Genealogia e Heráldica. Presidente Emérita e de Honra da Casa do Poeta "Lampião de Gás", de São Paulo.  Uma das maiores sonetistas brasileiras, além de exímia trovadora.

-- Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar!                            (1º lugar Nova Friburgo, 2002)
Não me roubes a certeza
de que logo irás voltar!

 

Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.

Ao sofrer uma agressão
a terra não choraminga                     
(Conc. da UBT SP 2000)
nem esboça reação,
mas... cedo ou tarde, se vinga...

Esperança é a caminhante
que, ora animada, ora triste,                      
(Conc. Elos Club ABC 2000)
vai, teimosa, mais adiante,
quando a Certeza desiste. 

Para a saudade que anela                         (Pindamonhangaba, 2000)
voltar à ventura morta,
o passado abre a janela,
mas nunca destranca a porta...

O auxílio cristão atua
com a maior discrição,                    
                  (Itanhaém/SP, 1999)
indo da concha da tua
para a concha de outra mão.

Torna um sonho em realidade                          (Barra do Piraí, 1999)
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,

foi mais bela a fantasia.

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,                (Vencedora Pouso Alegre, 1995)
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?...

Por nosso irmão não se conta
quem apenas nos exalta
e, sim, quem também aponta,
censurando a nossa falta.

 Minha vizinha é tão feia
que, aparecendo à janela,                                (Bandeirantes/PR, 1999)
o furacão a rodeia
com medo de tocar nela!
 

Quando, mãe, o tempo ingrato             (3º lugar Nova Friburgo, 1993)
em bruma a lembrança envolve,
bendigo o velho retrato
que teu rosto me devolve!

 

Circo de lona... de estacas,          (co-vencedora em Rio Novo/MG - 1992)
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...

 

Silencioso, palmo a palmo,          ("CALMA" - Menção Honrosa em Rio Novo/MG - 1988)
irreversível, tirano,
o tempo devora, calmo,
todo e qualquer sonho humano... 

 

A fantasia é um brinquedo
para instantes enfadonhos:
nos porões - varrendo o medo,       (Menção Especial em Niterói - 1986)
na torre - embalando os sonhos...

Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

0 grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso. 

Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.