(estrelando Ademar Macedo, o "Poeta do Alvorecer")     

     A Poesia do Rio Grande do Norte está terrivelmente órfã. No espaço de nove meses e vinte e sete dias perdeu dois irmãos-trovadores e poetas em todas as acepções.

     Costumamos, nas lides da União Brasileira de Trovadores, utilizar reciprocamente o tratamento de “irmão-trovador”. Ocorre que, neste caso, ambos são realmente irmãos, unidos pelo mesmo sangue: FRANCISCO NEVES MACEDO, falecido a 18 de março de 2012 e, agora, o queridíssimo ADEMAR MACEDO, conhecido como “Poeta Ademar” ou “O Poeta do Alvorecer”. Por duas razões muito justas. 1ª) por ser casado com a Dona Dalva, a quem ele chamava de “minha estrela Dalva”, e, 2ª) porque o Brasil poético acostumou-se a receber, todas as manhãs, entre cinco e seis horas da manhã, uma página criada por ele, sob o título de “Mensagens Poéticas”, sempre variando autores de todos os quadrantes, vivos e falecidos, numa agradável mistura de trovas, soneto, poema livre, sextilha e tudo o mais. Um trabalho feito há alguns anos, tendo ele o cuidado de evitar repetição de poesias ou trovas.

     Um labor verdadeiramente “franciscano”, ou, para não dizerem que fiz trocadilho com o nome do irmão dele, eu diria que… um labor verdadeiramente “ademariano”.

    Ademar Macedo era fuzileiro naval aposentado; perdera uma perna em cumprimento de suas funções e, há alguns anos também já houvera sido submetido a delicadíssimo tratamento; fora desenganado pelos médicos mas, milagrosamente sobreviveu. Não só sobreviveu como criou as suas “Mensagens Poéticas”, além de um informativo periódico chamado “O Trovadoresco”. Agora, porém, com tumores malignos na cabeça e no peito, após meses esperando pelo início de um tratamento que não vinha, quando enfim recebeu a notícia de que começaria a ser cuidado neste 17 de janeiro, não resistindo à terrível moléstia, veio a sucumbir dois dias antes do prazo estipulado. Em Natal, onde residia. Acho até que Deus cuidou de amenizar sua dor.

     Faleceu aos 61 anos mas, até o último momento, conservou seu espírito brincalhão, fazendo piada até com a própria doença e com o fato de ter uma perna só. Ele dizia, por exemplo, que, de muletas, seria difícil galgar os degraus da escada do Céu. E a nós, seus amigos, costumava pedir: “só fiquem tristes por mim quando souberem que eu afinal entristeci”.

     E ele “entristeceu” (e entristeceu-nos demais) neste 15 de janeiro de 2013. Uma figura inesquecível. Um paizão. Um “irmãozão”. Um moleque travesso e muito querido, capaz de fazer trovas assim:

Tem cão que mora no morro,
outro morando em mansão;
porque nem todo cachorro
leva uma vida de cão.

Meretriz… se faz cativa
da sua própria matéria,
retalhando carne viva
nos açougues da miséria!…

Deus a nada nos obriga,
são livres os passos meus;
porque Deus jamais castiga,
se castigasse… Meu Deus!!!

Visita pra meter medo,
que nem vassoura adianta,
é aquela que chega cedo
e só sai depois que janta!

No dia dos namorados,
quero, num desejo nosso,
correr os dois abraçados,
mas de muletas… Não posso!…
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texto de José Ouverney, publicado em 18.01.2013