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RAIMUNDO ALONSO PINHEIRO ROCHA
  nasceu em Belém/PA, em 15 de dezembro de 1926, filho do também poeta José Rocha Ladislau Junior e de Adalgisa Guimarães Pinheiro Rocha.  "Príncipe dos Poetas do Pará", era presidente do Academia Paraense de Letras. 
Falecido em 22 de fevereiro de 2011, em sua cidade natal.
 

(eu, José Ouverney, tive a honra de conhecê-lo e compartilhar apartamento com o notável poeta nos festejos da UBT São Paulo, em 2004)

Quem se julga eterno herdeiro
de um mundo farto e bizarro,
esquece que Deus - o Oleiro -
cobra o retorno do barro.

Poesia, como eu entendo,
é milagre de escrever...
Quase dizer, não dizendo...
ou não dizendo...dizer! 

Sobra do amor, rarefeita,
e tudo o que me restou,
a ternura é a flor que enfeita
o jarro triste que eu sou.

 

 

Ao lembrar que o teu brinquedo
é decifrar-me, sorrio...
-- De nada vale o segredo
de um velho cofre vazio.

Nas manhãs, num velho rito      (Venc. São Paulo - 2009)
(com o fim de protegê-las)
o Sol – pastor do infinito –
guardar o rebanho de estrelas.

Por esse amor insensato
eu sei que o céu me condena,    
(2º lugar Nova Friburgo - 2008)
mas a escolha do meu ato
eu troco por qualquer pena.

Dei conforto em hora aguda      (M. Honrosa Porto Alegre - 2001)
a tantos (que nem mais sei),
mas na dor só tive
ajuda
de mãos que nunca ajudei.

Tu partiste: em penitência,
sem pranto que me conforte,    
(M. Honrosa  Pinda - 2001)
eu sinto na dor da ausência
tua presença mais forte.

Sem resposta que conforte,     (M. Honrosa em Belém - 1994)

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

Em sofrer minha alma insiste,
mesmo sabendo, também,
que a dor da espera é mais triste
se não se espera ninguém...

Louco artista é o trovador,
que o sofrimento renova
quando exibe a própria dor
no palco de sua trova.

Quando já idoso e grisalho
te abraças numa paixão,
o tempo é o roto espantalho
que te afugenta a razão.

A igreja, as flores e o eleito;
ela de branco e eu tristonho:
foi o cenário perfeito
para o enterro do meu sonho.

Não desistas nem te dobres
se o teu trabalho é perdido,
pois nos garimpos dos pobres
há sempre um veio escondido.

Sempre que eu sonho na vida,
sou numa luta sem jaça
borboleta enlouquecida
batendo contra a vidraça.