ANTÔNIO PENA: professor e poeta, nascido a 02/12/1966, em Santa Rita de Jacutinga, MG, naturalizado fluminense, precisamente da cidade de Barra Mansa. Reside em Volta Redonda. Autor dos livros: Poemas, 1999, com 2ª edição em 2004, O invólucro da noite, 2010, Frêmito – 2010, Tempo de reencontro – 2013 e Cantigas para guardar, 2015.
 

 

 

Conquanto te atinjam o ser
farpas, golpes aos milhares,
tão somente hás de crescer
se a ti mesmo te humilhares. 
 
Ao falar de ti, sê breve;
ao de outrem, mais ainda.
Em dizer só o que se deve
há uma qualquer cousa linda. 
 
Não na palavra postiça
ou gesto que ludibria;
na prática da justiça
acha-se a sabedoria. 
 
O mal que outrem me faça,
que retorne como um bem.
Mais que vencê-lo, é uma graça
não desejá-lo a ninguém. 
 
Para uma trova compor
das que falam ao coração,
há que inspirar-nos amor,
enlevo, recordação...
 
Casas simples, sem varanda.
Velhos, crianças: cadeiras
nas calçadas e a ciranda
como uma das brincadeiras.
 
Doces caminhos de outrora,
pelos quais se ia a pé
té à igreja, onde à Senhora
Mãe se orava com que fé!
 
Festa de Maio, depois
da missa, olhava, domingo,
encher-se com um, e outro, e outros dois,
a barraquinha de bingo.
 
De manhã — a passarada;
meio-dia — pelos campos
e montes, mansa, a boiada;
no entardecer... — pirilampos.
 
Da lembrança não se apaga,
lia-o assim, devagarinho,
do bardo Tomás Gonzaga:
“Meu sonoro passarinho”...
 
Saudades... recordações...
de hortos... e praças... Ah, sem
o saber, os corações
felizes, a querer bem!
 
Eis que súbito revê
velha praça, um chafariz...
E recorda o tempo em que,
sem o saber, foi feliz.
 
Na hora da provação,
em que cruel a dor é,
que, afinal, do coração
se pode medir a fé.
 
Enquanto n’alma, guardada,
mágoa houver, que a faça fria,
a porta estará fechada
à chave para a alegria.
 
Tenta evitar, dentro em ti,
ranço, ciúme, amargor;
tais sentimentos é que
nos são a causa da dor.
 
Por tudo o que te rodeia,
que não ores, agradece!
De gratidão a alma cheia
já é, toda ela, uma prece.
 
Aquilo em que acreditamos
faz-se concreto, real.
Somos nós, nós quem chamamos
dor, prazer, o bem ou o mal!
 
Não é contra os, de carne e ossos,
inimigos que devemos
investir-nos. Contra os nossos
sentimentos maus lutemos!
 
Vemos no outro qualidade
ou manchas, vícios, segundo
a pureza ou iniquidade
que em nós é que há no fundo.
 
 “É da sorte” — frase ouvida —
“ser-se pleno ou desgraçado”?
Determina em tua vida
e dirás não ao mau fado.
 
Lição pura dos caminhos,
sejam por quais o homem for:
mesmo entre pedras e espinhos,
às vezes, brota uma flor.
 
Julgar?! Jamais, a ninguém!
Cabe a nós nos proteger
contra o que nos vai, porém,
no recôndito do ser.
 
São-te os dias sempre ermos,
te é a vida desolação?
Não vês que é preciso termos,
que mínima, uma ilusão?!
 
Nem sempre o que é mostrado
é o que valor mais tem;
se é belo o bosque cerrado,
as raízes que o mantêm!
 
Policia-te a ti mesmo!
Palavras e pensamentos
perdidos, sem rédea, a esmo,
são causa de sofrimentos.
 
O verbo, como o utilizes,
paz ou guerra gerará;
portanto, com o que tu dizes,
cuidado, cuidado já!
 
Triste de quem pela vida
tão só passa a rogar praga,
boca e alma ressequida,
crendo única a sua chaga.
 
Não te gabes de ir assim,
pela estrada, a conquistar;
toda sorte muda, e, enfim,
teu pé pode tropeçar!
 
Sê cristão com todo o mundo,
o tempo todo, aonde fores;
por mais que te firam fundo,
todo o mal paga com flores.
 
Ah, de fato, quão bonito
se o homem pudesse achar
dentro de si — o infinito,
n’alma — o arminho do luar!
 
Com o que no pensamento
nos vai tenhamos cuidado;
vem de carona no vento
o mal, quando convidado.
 
Não digas que não há jeito,
à frente é pedra, é espinho...
Não sabes? Não está feito,
ao andar faz-se o caminho.
 
Sorte, sentido do vento?
Ah, nada nos é negado
se temos o pensamento
no que queremos focado!
 
Receita para ascensão,
e plenitude, alegria?
Ei-la: suor e coração
na luta do dia a dia.
 
A ferina e malfazeja
língua esquece que, afinal,
o lírio puro viceja
à margem do pantanal.
 
Junto a humílima morada
de pau a pique e sapê,
vê-se em agosto, da estrada,
com que espanto, o belo ipê!
 
Primavera. Em tudo, encanto
e alegria contagiosa...
Basta se escute esse canto,
ou se contemple uma rosa!
 
Contemplando a natureza
em todo o seu esplendor,
admito, com certeza,
nela a mão do Criador.
 
O mar revolto, o infinito,
a serra, o vale, uma flor
encerram o quão bonito
de Deus por nós é o amor!
 
Não foi por merecimento
(não tenho senão pecados)
que a favor soprou-me o vento:
— sejam Pai, Filho louvados!
 
Não faças quanto tu pensas,
atropelando os demais;
conquista à custa de ofensas
tormentos consigo traz.
 
De seja quem for jamais
falemos, nem mal nem bem,
supondo, consciência em paz,
de nós não fale ninguém.
 
Cuidado por onde vais,
sê mais atento a perigo.
“Cautela nunca é demais”
— nos fala o ditado, amigo.
 
O que se alcançou, por mais
belo que seja, risonho,
nunca vale o que em si traz
nosso acalentado sonho.
 
Por mais se nos apresente,
juventude, a vida bela,
passa o tempo de repente,
o encanto levando dela.
 
Não pares, segue adiante,
tendo alegre o coração;
do que marcha confiante
sorte e tempo amigos são.
 
Deus — expressão de beleza,
de luz, de vida, de amor,
presente na natureza
que te inspira, ó trovador.
 
Feliz, da face, a expressão,
nos olhos — certo fulgor?
Tudo isso não é senão
a presença, em nós, do amor.
 
Súdito da poesia,
para de amor dar-te prova,
que presente te traria
melhor, meu bem, que uma trova?
 
Novamente a primavera:
a terra se abrindo em flor,
cantam aves, brinca a fera;
em tudo, quanto esplendor!
 
Seguem-se às horas mais belas
e instantes de mais amor
inesperadas procelas,
solidão, frio, negror...
 
A trova, saída do povo,
tão delicada e singela,
conquanto nada de novo
diga, será sempre bela.
 

OBS = notas e trovas colhidas com o próprio autor.