ARISTHEU BULHÕES nasceu em Maceió, no dia 08 de junho de 1909.  Formado em Direito, aposentou-se em 1968, em Santos, após 35 anos de serviço, no posto de Agente Fiscal da Receita Federal. Publicou:  "Paisagens', "Roteiro do Meu Além", "Devaneio", entre outros livros.
Ocupava a cadeira nº 19 da Academia Santista de Letras quando faleceu, em 31.10.2000.
 

Felicidade é supor,
num devaneio profundo,
que na conquista do amor
tem-se o domínio do mundo!

Vive o teu sonho de agora,
frui o que a vida te dá...
Tudo finda, vai embora,
só teu sonho ficará.

Mesmo a mentira inocente,
dita sem mágoa ou rancor,
pode trazer para a gente
o mais profundo amargor.

Eu era um triste poeta,
mas você, querida, trouxe
felicidade completa
com seu amor puro e doce.

Herói não é quem trucida
um inimigo qualquer,
mas, sim, quem levou a vida
amando a mesma mulher.

Uma rosa me pediste,
mas nenhuma flor te dei..
Ficaria a rosa triste
vendo outra mais linda – eu sei!

A angústia que te entedia,
Homem de vida ilusória,
é findar, na terra fria,
teu poder ou tua glória.

Não creias nas ilusões
a que tua alma se rende,
pois só de tuas ações
tua ventura depende.

Neste mundo que nos cansa
e nossa mente entedia,
és sempre tu, esperanca,
que enches a vida vazia.

Sem honra, a vida não presta,
perde o sentido e o valor...
Somente a existência honesta
tem futuro promissor.

Se tens nobreza e tens brilho,
nunca o teu nome decai
nem, amanhã, o teu filho
terá vergonha do pai!

Se tua palavra fere
a quem amor te daria,
sempre o silencio prefere,
pois nela a paz principia.

A morte não me intimida,
por ser justa... até demais!
Eu tenho medo é da vida
com seus rumos desiguais.

A angústia da vida vem
deste contraste profundo:
Uns, no mundo, tudo têm,
outros nada têm no mundo!

Num transporte de magia,
Deus compôs seu melhor verso,
quando enfeitou de poesia
a solidão do universo.

Define-se o amor com pouca
ou nenhuma erudição:
é açúcar que entra na boca
 e faz mel no coração!

Saudade - uma ânsia incontida
de achar o que se perdeu...
Recordação que dá vida
ao sonho que já morreu.

Só do perdão irradia
a ilusão que nutre o amor.
Tudo mais é fantasia,
simples sonho enganador!

Coração - cofre profundo,
elo de nossa emoção,
prendendo os sonhos do mundo
na teia azul da ilusão!

Rua de bairro esquecida,
quero-te assim pobre, ao léu...
Quanta miséria escondida
nas ruas de arranha-céu!

Lembrança - um eterno cofre
em que a ilusão permanece,
pondo, na alma de quem sofre,
consolo igual ao da prece.

Vejo na estrela cadente,
em seu destino fatal,
a glória de muita gente
que tem falso pedestal.

As ruas, tal como a gente,
têm destinos desiguais...
Umas vivem pobremente,
outras prosperam demais.

Mariposa do destino,
preso à luz do teu olhar,
sou qual rio cristalino
buscando o abismo do mar.

Tem a vitória um segredo
muito fácil de guardar:
olhar o mundo sem medo,
ter um amor e sonhar.

Feliz daquele que pensa
que sofrer é graça, é dom,
e vê, em tudo, a presença
de um Deus justiceiro e bom.