PAULO MONTEIRO (*)    Entre 1970 e 1990 eu escrevi e li poemas, compulsivamente. Em torno de 1980 publiquei, às minhas expensas e distribuí para cerca de 500 poetas de todo o país um jornalzinho intitulado “Quero-Quero”, título que inspirou o “Beija-Flor” do Clube dos Trovadores Capixabas, que circula até hoje.
          Foi um período riquíssimo, para conhecer a natureza humana, e que rendeu meu primeiro livro, “A Trova no Espírito Santo – História e Antologia”, numa raríssima edição de bibliófilo. Naquele tempo troquei muita correspondência com diversos trovadores, diversos deles já falecidos; de outros não sei por onde andam como também devem desconhecer os caminhos que tomei.

Um daqueles bons amigos chama-se Álvaro Faria, poeta requintado, à antiga. Homem profundamente preocupado com a forma é autor de um opúsculo de 4 páginas, no formato 15,3X 21,6cm, intitulado CONSIDERAÇÕES SÔBRE A TROVA, impresso nas oficinas da Gráfica-Editôra Hélios, Ltda., no Rio de Janeiro, em agosto de 1965.
          Trata-se de uma raridade literária, cujo conteúdo e importância para os cultores dessa forma poemática merecem compartilhamento com mais de 5.000 escritores brasileiros que escrevem trovas. É por isso, e em homenagem a um velho e querido amigo de quem não tenho notícias há vários anos, que transcrevo, a seguir, aquele folheto, atualizando a grafia.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A TROVA

ÁLVARO FARIA

     Cultivada por poetas-trovadores, divulgada e dignificada, vem a trova, nos últimos anos, impondo-se cada vez mais nos meios literários. É inegável que, nesse renascimento, a trova passou a apresentar-se mais apurada e mais culta, surgindo, então, o que chamamos trova erudita, em contraposição à que denominamos, por menos literária, trova popular.
     Em que se distingue, porém a trova erudita da trova popular? Distingue-se, no nosso modo de entender, na forma e no conteúdo. Podemos dizer que a trova popular se caracteriza, em linhas gerais, pela vulgaridade, quanto ao conteúdo, e pela imperfeição, quanto à forma (versos frouxos; rimas escassas – 2 X 4 –, toantes ou pobres; tônicas discordantes, etc.). A trova erudita se distingue pela arte na composição e pela sublimidade do conteúdo, ou por aquela “excelência de idéia” de que nos fala Paula Faria, exemplo típico de trovador erudito.
          Podemos ainda assinalar outras características da trova erudita. Vejamos.

    1) Na trova erudita os versos são dispostos de modo a formarem exatamente dois dísticos de catorze ou de quinze sílabas métricas, conjugando-se o primeiro com o segundo e o terceiro com o quarto.
Exemplos: De catorze:

“Talvez Deus em mim pensasse,
ao moldar teu lindo rosto. /
– Deu-te ao moreno da face
as sombras do meu desgosto.”
Nilo Aparecida Pinto

De quinze:

“A imagem de nossas almas
está nas águas profundas:
quanto mais tristes, mais calmas;
quanto mais calmas, mais fundas.”
Adelmar Tavares

     Prejudica a harmonia da trova a composição em que se acham estes dois tipos de dísticos, isto é, um de catorze e outro de quinze sílabas, ou vice-versa.

     2) O verso de sete sílabas se compõe de dois segmentos de 2 + 5, 3 + 4, 4 + 3 e 5 + 2 sílabas métricas (não queremos dizer dois versos). Segundo essa estrutura, temos por eruditas as trovas que oferecem, em todos os seus versos, as variações tônicas 1-3-5-7. (“Sua cruz que eu sei pesada”, de Lilinha Fernandes), 1-4-7 (“Eu, pecador, me confesso”, de Luiz Otávio), 2-4-7 (“Do berço à tumba há um caminho”, de Belmiro Braga), 2-5-7 (“Saudade, palavra doce”, de Bastos Tigre) e 3-5-7 (“A Justiça é mesmo cega”, de Félix Aires). Admitem-se como carentes de melodia os versos que apresentam as variações 1-3-7 (“Entre medo e comoção), 1-5-7 (“Fica inteiramente nua”, 3-7 (“Se a saudade me tortura”) e 4-7 (“Os desencantos da vida”). É defeituoso o verso em que se encontra a variação 2-7 (“Os olhos dos namorados”), pois o intervalo de cinco sílabas átonas obriga a acentuação secundária, muitas vezes em sílaba incerta (tônica discordante). Trova é cantiga e não aceita bem a composição em que se encontrem mais de três sílabas métricas se uma tônica forte.

     3) A trova erudita repele as estrofes marteladas, enfadonhas, cujas tônicas incidem em uma só das vogais. Assim: “Já me enfada a soledade”; “Às vezes tenho tristeza”; “Trilho os caminhos da vida”; “Onde o meu sonho repousa”; “Nunca busques a ventura”. É claro que não nos referimos aqui aos versos intencionalmente compostos para produzirem determinado efeito, como esses: “Pois quanto menos te quero, / mais te quero, sem querer”, de Onildo de Campos.

     4) A trova erudita rejeita os versos em que figuram palavras que entram em choque ou colisão: “O meu amor quer carinho”; “As minhas mãos estão frias”.

     5) A trova popular é indiferente ao valor das rimas, enquanto a trova erudita se aprimora nelas, sem cair em reprováveis preciosismos.

     6) A trova erudita recusa as rimas homófonas, como essas:

“O suspiro é na verdade
um mensageiro cansado
que vai cheio de saudade
correndo atrás do passado”,
Antônio Bittencourt.

     Vimos até aqui o que é trova erudita sob o ponto de vista da forma. Vamos agora caracterizar a trova erudita sob o ponto de vista do conteúdo, isto é, da idéia. Para falar em idéia temos de começar falando em linguagem. Assim, a trova erudita se distingue sobretudo pela linguagem correta e culta, sem prejudicar-se pela prolixidade ou pela obscuridade. Evita as expressões vulgares, os lugares comuns e as imagens gastas. Não desdenha de nenhum tema, mas procura trata-lo adequadamente, com elevação e dignidade, sem o lirismo ingênuo do queixoso amante, ou a pieguice do infeliz chorão.

     Achamos desnecessário alinhar, nestas breves considerações, os vícios de linguagem, como o solecismo, o cacófato, a chulice, etc., entre os defeitos das trovas. Tais defeitos não recomendam o autor, nem mesmo na prosa.

     Como, no julgamento de um trovador, enquadrá-lo como erudito ou popular? Evidentemente, pela predominância das qualidades da trova erudita em suas composições, num caso, ou pela ausência dessas qualidades, noutro caso, pois, como é natural, não será por uma ou outra composição isolada que poderemos julgar o trovador. Há ainda os ecléticos, os que não apresentam características próprias que permitam enquadrá-los num ou noutro grupo.

     Dissemos, no início destas considerações, que Paula Faria é o exemplo típico de trovador erudito. É uma afirmação que poderá ser verificada pela leitura e observação de seus livros de trovas “Por Montes e Vales” e “Estrelas e Busca-Pés”. Verdadeiro “joalheiro da trova”, é um trovador que a dignidade do tema e o fino lavor artístico se conjugam admiravelmente na quase totalidade de suas composições, dando-se, inclusive, ao requinte de intercalar trovas que terminam em grave e trovas que terminam em agudo, num conjunto harmonioso que, sob esse aspecto, não tem semelhança com qualquer outro autor. Por tudo isso, a contribuição de Paula Faria à literatura trovadoresca brasileira é notável, embora não tenha sido assinalada com justiça, seja pela deficiente divulgação de seus livros de trovas, seja pelo afastamento do autor da vida social literária.

     É preciso, porém, observar que, no esforço de incorporação da trova à literatura (em que a trova nem sempre é aceita), alguns autores passaram a cultivar a trova erudita, surgindo os poetas-trovadores, fiéis seguidores de Adelmar Tavares, Antônio Sales, Belmiro Braga e alguns outros que, no passado, se dedicaram à trova, sem, entretanto, dar-lhe lugar condigno na literatura.
Vamos citar algumas trovas eruditas, para bem distinguir uma e outra espécie. É lógico que trova erudita não quer dizer trova perfeita. Pode uma trova apresentar um senão, mas oferecer tais qualidades que a distingam como erudita.

Vejamos essas:

O olhar dos bons tem o brilho
que nos lembra o olhar profundo
de Maria, olhando o Filho;
de Jesus, olhando o mundo.
Paulo Emílio Pinto

Meu dia acaba tristonho
e eu não consigo esquecê-lo:
aquela que foi meu sonho
é, hoje, o meu pesadelo...
Gentil Fernando de Castro

     Observemos estas trovas. Ambas simples e cantantes. Nenhuma tônica discordante, nenhuma colisão, nenhuma estrofe martelada. Rimas bem combinadas em som e categoria. Ambas excelentes quanto à idéia e de forma apurada.
Analisemos as trovas citadas.

A de Paulo Emílio Pinto:

Dísticos de quinze sílabas métricas.

1º verso: Segmentos: 2 + 5 (também 4 + 3). Tônicas: 2-4-7
2º verso: Segmentos: 3 + 4 (também 5 + 2). Tônicas: 3-5-7
3º verso: Segmentos: 3 + 4 (também 5 + 2). Tônicas: 3-5-7
4º verso: Segmentos: 3 + 4 (também 5 + 2). Tônicas: 3-5-7

A de Gentil Fernando de Castro:

Dísticos de catorze sílabas métricas.

1º verso: Segmentos: 2 + 5 (também 4 + 3). Tônicas: 2-4-7
2º verso: Segmentos: 4 + 3 Tônicas: 1-4-7
3º Verso: Segmentos: 2 + 5 (também 5 + 2). Tônicas: 2-5-7
4º verso: Segmentos: 2 + 5 (também 4 + 3). Tônicas: 2-4-7
Ambas eruditas.

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(*) Paulo Monteiro, autor de centenas de artigos e ensaios sobre temas literários, históricos e culturais, pertence à Academia Passo-Fundense de Letras, ao Instituto Histórico de Passo Fundo, à Academia Literária Gaúcha e a diversas entidades culturais do Brasil e do Exterior. Seu endereço para correspondência é: Paulo Monteiro, Caixa Postal 462, CEP 99001-970, Passo Fundo, RS.
Passo Fundo, RS, 29 de julho de 2008.