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                                                                                                                         (Na foto, da esquerda para a direita, Pedro Melo (autor do presente texto), Rodolho Abbud, Dilva, Antonio Carlos, Lúcia e Lunanda)

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ADEUS, DILVA, DIVINA DIVA!

 
            Dilva Maria de Moraes. Seu nome é um convite ao inevitável trocadilho: Dilva/Diva. Sim, Dilva era a Diva da trova friburguense. Culta, charmosa, refinada, elegante... mas, acima de tudo, um Ser Humano do Bem, desses poucos que irradiam Luz à sua volta.

            Seu nome se confunde com a história dos Jogos Florais de Nova Friburgo: como o carteiro trabalhava no início do ano, entregando centenas de correspondências para o endereço da “Avenida Ariosto Bento de Mello”, residência de Dilva, um charmoso cruzamento da Avenida Alberto Braune, perto do Hotel Fabris, bem no coração de Friburgo! Se o carteiro não conhecesse a história, como devia se perguntar: “Quem é esse tal de Luiz Otávio que manda cartas de tantos lugares pra cá?”

            Dilva fez parte da diretoria da UBT – Seção de Nova Friburgo e também fez muitas trovas. Concorria pouco nos concursos, priorizando os realizados em seu torrão natal.

            Não era uma poetisa dada a grandes arroubos líricos e suas composições se caracterizam pelo caminho filosófico, de meditações existenciais, como nesta trova a seguir, uma de suas poucas participações fora de Friburgo, premiada em Cambuci, em 2008:
           
A minha grande alvorada
será eterna... eu suponho!
Se um sonho não der em nada...
eu troco por outro sonho!
 
            Não que fosse alheia ao encanto da trova lírica, mas até no lirismo sua veia era discreta, comedida, como se fosse um reflexo de sua personalidade. Seu lirismo não tem nada de piegas:
 
Minha vontade se expressa
e eu recuo... e me patrulho,
segurando a minha pressa
para agradar meu orgulho!

            Nesta outra, esse traço filosófico também é evidente:
 
Brigamos... e, logo após,
a minha voz se condensa,
pois o tom da tua voz
mais parece uma sentença!...
 
            Um aspecto que chama atenção nas trovas de Dilva é que são trabalhadas, com palavras bem escolhidas, o que se evidencia nas rimas empregadas, utilizando combinações bastante expressivas, como nesta:
 
Não há conversa... e, entre nós,
a indiferença é comum.
E o silêncio mais atroz
começa no desjejum!
 
            Também fazia trovas humorísticas, mostrando notável presença de espírito:
 
Na noite do "vamos ver",
precisando de um calmante,
desesperou-se ao saber
que o remédio era um ... laxante!...
 
            Estava fragilizada, lutando contra enfermidades. Em 2017, nem pôde estar presente nos Jogos Florais, mas brilhou pela ausência. Ainda teve forças para o canto do cisne, sua última premiação, uma trova lírica em que se abre mais para a expressão do sentimento amoroso, sendo os dois primeiros versos praticamente premonitórios:
 
Num coração combalido
pelo excesso de cansaços,
minha reforma tem sido
a ternura dos teus braços!
 
            Hoje, neste marcante 01 de fevereiro de 2018, o mundo da trova fica mais triste ao saber que seu coração “combalido pelo excesso de cansaços” infelizmente parou de bater.

            Dilva nos deixou e já estamos com uma saudade apertada, com o coração dolorido, imaginando que, ao andarmos pela Avenida Alberto Braune e cruzarmos a Av. Ariosto Bento de Mello, o endereço oficial dos Jogos Florais durante tantos anos, pararemos na esquina porque no peito vai doer a Saudade de sua mais amada moradora...

Seu sepultamento ocorreu às 14,30h. do dia 01 de fevereiro de 2018 em sua querida Nova Friburgo.
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                                         NOTA = o Prof. Pedro Melo é professor, Magnífico Trovador por Nova Friburgo e Delegado da UBT em União da Vitória/PR.