BELÉM   CHORA  O  SEU  CANTADOR! 

            Eu o conheci em julho de 2004, durante evento promovido pela União Brasileira de Trovadores, seção de São Paulo, no qual fomos ambos classificados.  Com 78 anos à época, extremamente comunicativo e com fantástico poder de memorização,

era capaz de ficar horas e horas declamando suas trovas e seus sonetos.

 

            Por coincidência ficamos no mesmo apartamento: cenário propício para que trocássemos muitas ideias e muitos versos.  Cativaram-me sua simpatia e sua humildade.  Não permitiu que nos despedíssemos sem, antes, tirar umas fotos juntos.

 

            Outra coincidência também marcaria nossos momentos na capital paulista.  Para o chamado “concurso-relâmpago” (é fornecido um tema durante os festejos e, geralmente, premiam-se os três melhores trabalhos), o tema enfocado foi “Cruz”.  Ele me mostrou sua trova, eu lhe mostrei a minha, fizemos comentários sobre as mesmas e, ao serem divulgados os vencedores, a Comissão Organizadora foi obrigada a providenciar, às pressas, mais uma medalha, pois nossas “cruzes” foram consideradas rigorosamente empatadas.

 

            Lembro-me que, durante o café da manhã os trovadores comentavam sobre um rumoroso (e democrático) debate ocorrido na véspera, entre o meu parceiro de apartamento e o mestre Izo Goldman.  Este, afirmando categoricamente que a Trova é de confeção muito mais difícil que o Soneto. E, o primeiro, jurando que o Soneto é muito mais complexo. Os argumentos foram acalorados e, por momentos, chegaram a roubar do nosso ilustre hóspede a tradicional fleuma.

 

            Depois dessa data, tive a oportunidade de vê-lo ainda mais três vezes: uma em Pouso Alegre e duas em Nova Friburgo, sendo a mais recente em 2008, por ocasião do Jubileu de Ouro dos Jogos Florais na cidade serrana.

 

            Por isso fui dolorosamente surpreendido na noite de 22 de fevereiro de 2011, por um email que enviou o amigo poeta Antonio Juraci Siqueira, comunicando:

            MORREU O “PRÍNCIPE DOS POETAS DO PARÁ”, ALONSO ROCHA!

 

            Desnecessário discorrer sobre o vazio que se forma no universo poético brasileiro, com a partida desse renomado homem de letras, que foi batizado como RAIMUNDO ALONSO PINHEIRO ROCHA, nascido em Belém a 15 de dezembro de 1926, filho do também poeta José Rocha Landislau Junior e de Adalgisa Guimarães Pinheiro Rocha.

 

            Alonso era casado com a senhora Rita Ferreira Rocha e pai de cinco filhos: Sérgio, Nelson, Geraldo, Ronaldo (falecido prematuramente) e Ângela.  Ocupava a cadeira nº 32 da Academia Paraense de Letras, de cuja entidade era também o presidente, além de presidir a UBT, seção de Belém.

 

            “Príncipe dos Poetas do Pará”, o quarto em ordem sucessória, com sua partida, deixa vago o trono, até que novo plebiscito indique seu sucessor.  Além de exímio trovador, era considerado um dos grandes sonetistas brasileiros.

 

O poeta Alonso Rocha,
aqui seu ciclo termina,
mas lá no céu desabrocha
outra estrela, na surdina.

 

Alonso, descansa em paz,

tua missão foi cumprida:

na terra, teu corpo jaz;

no etéreo, ascendes à Vida!

 

         ALGUMAS TROVAS DE ALONSO ROCHA:

Poesia, como eu entendo,
é milagre de escrever...
Quase dizer, não dizendo...
ou não dizendo...dizer! 

Ao lembrar que o teu brinquedo
é decifrar-me, sorrio...
-- De nada vale o segredo

de um velho cofre vazio.

Sem resposta que conforte,
dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?
Fim? Partida? Porto? Porta?