Vai terminando o almoço dominical que marca o encerramento de mais um evento festivo de trovadores. A maioria de nós, já com passagens compradas, começa a sair apressadamente. Alguns se despedem da maioria; outros, apenas dos que se encontram à sua volta, e uma terceira parcela prefere sair  “à francesa”, para não perder tempo.
 
            Muitas vezes reencontramos muitas dessas mesmas pessoas em outro evento parecido. Raras vezes reencontramos todos. São vários os motivos que nos levam a não mais vê-los: a não classificação de nossa trova; os problemas, cada vez mais frequentes de saúde; a saúde financeira; o trabalho...
 
            Estou há quase vinte anos nesse “mundo da Trova” e confesso-lhes que há uma quantidade imensa de irmãos-trovadores a quem só encontrei uma vez, em que pese fazermos contatos virtuais. Muitos nem acessam internet...
 
            Durante essa trajetória nascem muitas novas amizades mas algumas, especialmente, podemos chamar de “preferenciais”: são aqueles com quem temos maior afinidade. Acho até natural.
 
            Poxa, estou aqui, todo enrolado com o texto, pra lá e pra cá, tentando lhes dizer alguma coisa e não consigo exprimir o que de fato pretendo. A minha ideia é: por que, ao nos despedirmos dos nossos irmãos-trovadores, nesses poucos almoços dominicais, não “perdemos” um tempinho a mais e enlaçamos cada um, num abraço mais atento, num cumprimento mais efusivo? Por que saímos tão depressa? Ah, como já disse, é pra não perder o ônibus, ou o avião...  Então pensei o seguinte: por que já não começamos a nos despedir de manhã, durante o café, ou mesmo antes de começarmos a almoçar?  Por que deixamos para trás aquele abraço caloroso, que nos ajudaria tanto a saborear os momentos saudosos que ali passamos, em tão agradáveis companhias?  De repente, no próximo evento, alguns daqueles que ali estavam já não estarão presentes. Um ou outro nunca mais estarão presentes... E aquele abraço que deixou de ser dado simplesmente não poderá ser resgatado...
 
            Antônio Carlos Rodrigues, você me levou a escrever esse texto sem grande técnica mas sincero e emocionado, no instante em que fiquei sabendo de sua partida definitiva deste Planeta, no dia 29 de março de 2017. Não houve a última cerveja juntos; e eu nem lembro se, da última vez em que nos vimos, eu lhe dei um abraço de despedida ou saí apressadamente... Ou se nem sequer me despedi...
 
            Assim foi com tantos outros: fiquei devendo o último abraço a Rodolpho Abbud, a Marina Bruna, a Ruth Farah, a Almerinda... São tantos, que até fica difícil enumerá-los.  Vou encerrar minhas palavras com duas trovas. A de Adolpho Macedo, que é uma de minhas “trovas de cabeceira”:
 
Foi tanta gente querida
residir na eternidade,
que a rua da minha vida
é asfaltada de saudade...
 
E esta outra, que compus já há algum tempo, resumindo o que estas perdas nos causam, porque um amigo é, em meu entender, acima de um grande trovador, um ídolo para mim.
 
Pra mim, a mais dura prova
hoje é uma cena comum:
ver meus ídolos da Trova
irem partindo, um a um...
 
Texto escrito por José Ouverney em 30.03.2017 para o site Falando de Trova.