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CLARO, UM FOTÓGRAFO

TEXTO DE DOROTHY JANSSON MORETTI, delegada da U.B.T Sorocaba
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     Claro Gustavo Jansson, meu pai, veio da Suécia em 1891, com 14 anos de idade. Trabalhou em profissões diversas e em várias cidades do país. Já adulto, morando na Argentina, estudou fotografia, e desde então dedicou-se à arte até o fim de sua vida. Faleceu em 1954. Seu filho Gustavo Adolfo continuou na profissão, na cidade de Itararé onde residia, até sua morte em Janeiro deste ano, deixando Foto Jansson aos cuidados de sua filha Jandira, na mesma cidade, no Estado de São Paulo.

      Meu pai foi uma pessoa marcante em todos os sentidos. Alto, magro, profundos olhos azuis, figura imponente. Inteligência rara. Costumavam chamá-lo “enciclopédia viva”. Falava sete línguas, o que lhe permitiu, perante os diretores da Companhia Lumber - durante o tempo em que morou em Três Barra, SC - ser o intérprete dos operários estrangeiros em greves, levando-lhes as suas reivindicações. Dos idiomas que falava, em alguns dizia-se analfabeto, por tê-los aprendido unicamente de ouvido. Mas, com exceção do polonês, lia qualquer um dos outros, embora não os escrevesse com perfeita correção.

     Simpático, fazia com facilidade amigos que o estimavam e admiravam intensamente a sua impressionante cultura auto-didática. Ele era o tal de quem dizemos, brincando, mas com absoluta certeza: “Ele entende de tudo...”

    Quanto ao que realizou como profissional da fotografia, é impossível deixar de citá-lo como verdadeiramente notável. O acervo que deixou mostra-nos de tudo: festas cívicas, comícios, casamentos, moda , figurões da política, inaugurações, paisagens rurais e urbanas, piqueniques, grupos familiares, revoluções... Estas merecem destaque especial. Parece que ele estava sempre presente onde houvesse “barulho”. Foi assim em 1893, aos 16 anos de idade, quando, involuntariamente, viu-se envolvido na guerra civil daquele ano. Foi assim entre 1912 e 1916, na revolução do Contestado, na qual, tanto em Porto União da Vitória (que era o nome único das duas cidades atuais), fotografando as forças do governo em sua passagem pelo local, como em Três Barras, SC, onde passara a residir em 1914, fotografando os camponeses revoltosos após sua penosa rendição. Fotos que o tornaram famoso e lhe valeram a patente de 1o. Tenente da Guarda Nacional, que lhe foi concedida pelo então Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca.

     Foi assim em 1924 quando, residindo em Três Barras, fotografou as forças paulistas entrincheiradas à margem do Rio Negro. Foi ainda assim em 1930, quando o chefe vitorioso Getúlio Vargas, em sua passagem por Itararé, teve seu primeiro registro fotográfico como vencedor, através da câmera – curiosamente - de um fotógrafo sueco. O “ciclo” das revoluções termina em 1932, no levante paulista, ocasião em que, apesar de doente, tirou muitas fotos, dentre as quais uma que mostra os vencidos viajando penosamente em trens-de-carga.

     Mas ele teve também as suas guerras particulares. Em Itararé, onde residia desde 1928, num conflito tramado contra o ginásio local, lutou bravamente, defendendo-o em companhia de amigos. Essa batalha ele perdeu. O colégio fechou. Lutou, depois, para novamente criar um ginásio na cidade. E desta vez, sempre na companhia de amigos movidos pelo mesmo ideal, saiu-se vitorioso. Sua última batalha foi contra a enfermidade. Enfrentou-a com resistência e coragem, até que as forças lhe faltaram de vez e ele partiu, deixando em nossa saudade as marcas indeléveis de sua passagem, como pessoa, como profissional, como chefe de família e como amigo... em todos os lugares por onde peregrinou, onde viveu e onde lutou. ___________________________________________________________________________