Archimino Lapagesse - Rio de Janeiro (Florianópolis)

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ARCHIMINO LAPAGESSE nasceu em Florianópolis no dia 22 de abril de 1897. Filho de Roberto Leônidas Lapagesse e Maria José dos Santos Lessa Lapagesse.Formou-se pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Niterói em 1918. Já nos II Jogos Florais de Friburgo, em 1961, foi o segundo colocado com uma belíssima trova:



"Saudade - ponte encantada

entre o passado e o presente,

por onde a vida passada

volta a passar, novamente..."




No mesmo ano, nos I Jogos Florais de Pouso Alegre, Archimimo Lapagesse, repetindo o difícil feito de Friburgo, conseguiu uma boa colocação entre as dez primeiras trovas daquele concurso.

"A Esperança se revela

em cousa bem natural:

um sapato na janela

numa noite de Natal!...




E assim Archimimo - antigo poeta parnasiano - foi compondo trovas e mais trovas, com facilidade, com fluência, com inspiração. Espírito simples e modesto.A respeito de suas trovas, elas estão aí, e o próprio leitor haverá de tirar suas conclusões. Como curiosidade, estas três na seqüência eram as trovas preferidas de Luiz Otávio:

“Se Deus atendesse um dia

minha prece ingênua e doce,

quem fosse mãe não morria

por mais velhinha que fosse!”




“Parte, se estás de partida,

mas não te despeças, não;

pois dói mais a despedida

que a própria separação!”




“Na lua existe um moinho

que leva a noite a girar,

moendo o trigo branquinho

com que Deus faz o luar!...”




 Archimino residia no Rio de Janeiro, onde veio a falecer, em 27 de janeiro de 1966.

 

 

Bom, após as apresentações, vamos ao mais aguardado: as trovas! 

01

Nós - poetas e trovadores,

tarde, ou jamais, conhecemos

os verdadeiros autores

de quantos versos fazemos!

02

Os poetas, quando envelhecem,

lembram o tronco velhinho

em que as orquídeas florescem

e os pássaros fazem ninho!

03

O prazer no mundo passa

quando menos se pressente;

é que o vento da desgraça

quando sopra é de repente!

04

Já que tens alma de artista,

vive teus sonhos em paz;

mas que não percas de vista

o feio mundo em que estás!

05

Quem faz o bem não concebe

que a ingratidão seja ofensa,

pois de Deus é que recebe

verdadeira recompensa.

06

Mãe não rima certamente...

Mas vejo, lembrando a minha,

que há muitas rimas, se a gente

quiser chamá-la mãezinha!

07

Saudade, ponte encantada,

entre o passado e o presente,

por onde a vida passada

volta a passar novamente!

08

Neste mundo desigual,

que tantas duvidas tem,

há tanto bem que faz mal,

há tanto mal que faz bem!

09

Veio a Trova, e trouxe tanta,

tanta mágoa de além-mar,

que hoje o Brasil quando canta,

Portugal põe-se a chorar!

10

Dos anos pelos caminhos

vejo, assustado e surpreso,

que é nas costas dos velhinhos

que a vida põe maior peso!

11

Quando costuras, parece

o teu dedo, no dedal,

soldadinho que tivesse

capacete de metal!

12

A mentira se revela

o mais feio dos pecados

mas também, às vezes ela

dá consolo aos desgraçados!

13

Dizem que a Fortuna é cega;

ela não é cega não:

vê bem o pobre, a quem nega,

e o rico, a quem abre a mão!

14

Tu foste à missa. .. Ora veja!

Por força dos olhos teus,

todo o mundo vai a igreja:

acabaram-se os ateus!

15

Ninguém culpe a quem prefira

mentir dizendo o que agrade:

há muito mel na mentira

e muito fel na verdade!

16

Veneração, misticismo,

pecado, seja o que for:

guardas no teu catecismo,

as minhas trovas de amor!

17

Há uma graça agoureira

que assusta néscios e sábios:

a graça de uma caveira

rindo com dentes sem lábios!

18

"A terra te seja leve"

e a gente, mal avisada,

essas palavras, escreve

numa pedra, tão pesada!

19

Se Deus atendesse, um dia,

minha prece ingênua e doce,

quem fosse mãe não morria

por mais velhinha que fosse!

20

Tão velhinha, tão velhinha

partiste deste degredo;

e eu te pergunto, mãezinha,

se ainda não era cedo!

21

Disse-me a cigana, um dia

lendo em minha mão a sorte,

que o M que diz Maria

às vezes quer dizer Morte!

22

Beijando - que idéia louca! -

a imagem que beijas tanto,

eu quero é sentir na boca

os beijos que dás no santo!

23

Parte, se estás de partida,

mas não te despeças, não;

pois dói mais a despedida

que a própria separação!

24

Morrendo um ceguinho doente,

aos olhos que nunca viram,

a luz se fez de repente,

e as portas do céu se abriram!

25

Na lua existe um moinho

que leva a noite a girar,

moendo o trigo branquinho

com que Deus faz o luar!

26

Melhor pintor é o que pinta

na tela um borrão qualquer;

pois é num borrão de tinta

que a gente vê o que quer!.

27

Amores de praia! ... O teu,

que me inspirou tanta fé,

era tão grande... e morreu

antes de encher a maré!

28

Para uma trova perfeita,

de sentimento profundo,

ando fazendo a colheita

das dores todas do mundo!

29

Ergueu o vento os refolhos

de tua saia rendada,

e jogou pó em meus olhos

para que eu não visse nada!

30

Deu o Senhor aos ceguinhos

tantas graças divinais,

que há quem cegue os passarinhos

para que eles cantem mais!

31

Resiste ao vento o pinheiro

e a ramaria espedaça;

mas o bambu mesureiro

dobra o dorso, e o vento passa!

32

Teu vestido chamalote

é um precipício, vizinha;

pois através do decote

podes passar inteirinha!

33

Li teu caderno, onde vêm

uns versos meus em destaque.

Muito obrigado, meu bem,

mas não me chamo Bilac!

34

Teu beijo é de tal dulçor

que se me beijas, menina,

recorro logo ao doutor

para tornar insulina!

35

Se chegas com teus amores,

mal te pressentem os passos,

abrem-se todas as flores,

abrem-se todos os braços!

36

Piscando a luz triste e baça,

o lampião do caminho

parece chamar quem passa

com medo de estar sozinho!

37

Florianópolis passa

ante os meus olhos febris:

Meus pais... a figueira ... a praça ...

O mar... a ponte ... a Matriz! ...

38

os pássaros emigraram,

o jardim não deu mais flor,

na fonte as águas secaram:

acabou-se o nosso amor!

39

Quando o vento abre a janela,

todo em flor, o jasmineiro

atira os ramos por ela

e beija o teu travesseiro!

40

Beijo de boca pintada,

às vezes, por descaminho,

é borboleta encarnada

que pousa no colarinho!

41

Toda mulher é bonita

com um artifício qualquer;

um simples laço de fita

faz milagres na mulher.

42

Em meio às mágoas em que ando

tive hoje um dia feliz:

ouvi um cego cantando

trovas de amor que te fiz!

43

A mocidade pretensa

de certos velhos faz rir:

a velhice é uma doença

que ninguém pode encobrir.

44

É um quadro negro a vida,

onde Deus escreve a giz

a equação já resolvida

em que a morte é igual a X!

45

Disse um poeta - idéia louca!

Que o beijo é fruta.. Não é:

O beijo nasce na boca,

a fruta nasce no pé!

46

Não haveria na Terra

tanto mal que se reprova,

se os maus que fazem a guerra

soubessem fazer a trova! ...

47

Viram-se na praia um dia ...

Foi uma história risonha ...

Depois houve pretoria,

lua de mel e... cegonha! ...

48

As rendeiras - diz a lenda

que morreram sem casar,

hoje no Céu fazem renda

tecendo a luz do luar!

49

A Morte, na vida insana,

se engana constantemente;

e, sempre que ela se engana,

leva o são e deixa o doente!

50

Pessegueiro do caminho

que envelheces dando flor:

lembras um poeta velhinho

que ainda faz versos de amor!

51

No carnaval desta vida,

ou por graça ou por maldade,

a Mentira anda vestida

com a nudez da Verdade!

52

A Fortuna os bens reparte

em partes tão desiguais,

que dá sempre a maior parte

àqueles que têm demais!

53

Por mais que a vida te doa

não a queiras maldizer;

pois a vida não perdoa

os que não sabem sofrer!

54

A mulher feia, afinal,

encanta, às vezes, também,

com essa graça espiritual

que muitas belas não têm!

55

Foi sempre pobre o talento,

na vida paradoxal,

rico é o crânio de cimento

que só pensa em pedra e cal!

56

Desgraça triste é a que passa

sozinho aquele que a tem;

que o consolo da desgraça

é ser dos outros também!

57

Não te culpo, se propalas

tua inconstância no amor;

pois as mais lindas opalas

são as que mudam de cor!

58

A Morte que a gente evita,

- e não adianta evitar -

não avisa a quem visita,

quando sai a visitar...

59

O mundo foi sempre o que era

e há de ser de qualquer sorte:

- a velha sala de espera

onde a gente espera a Morte

60

Mostras nos olhos, em calma,

todo o teu drama interior:

num lindo corpo sem alma

um coração sem amor!

61

Por ironia ou vingança,

a Vida não foi sincera,

dando olhos cor de esperança

ao triste que nada espera!

62

Mulher que vive calada

e que com tudo concorda,

ou tem a corda quebrada,

ou não lhe sabem dar corda!

63

Foi para enfeitar a vida

em sua triste aridez,

que essa graça dolorida

de fazer versos se fez!

64

Estás morta embora viva...

bem morta, sim! ... Minha trova

é uma lâmpada votiva

que acendo na tua cova!

65

Idéia que julgais nova,

qualquer sentimento novo

é coisa velha na trova,

anda na boca do povo!

66

Posto num crânio, estatui

o velho aviso mordaz: -

"O que tu és eu já fui,

O que hoje sou tu serás!"

67

Renego a lição dos sábios

que nada sabem do amor...

Com um beijo só de teus lábios

tirei carta de doutor!

68

O riso que os outros têm

nunca se deve invejar;

que o riso às vezes também

é um modo de se chorar!

69

É velha lição sabida

que trago sempre de cor:

dos males todos da vida

nascer é sempre o maior!

70

Eu maldiria a velhice

se, à sombra que ela projeta,

uma porta não se abrisse

para os meus sonhos de poeta!

71

Se o médico não se ajeita,

receitando mata alguém;

mas, errando na receita,

às vezes cura também!

72

Troféus de amor!... Hoje, ao vê-los,

só me fazem confusão:

laços de fita, cabelos

que já não sei de quem são!

73

A quem chora ao pé de um morto

não digas seja o que for,

que as palavras de conforto

inda aumentam mais a dor!

74

Fazer versos é mania

que qualquer um pode ter;

mas os versos com poesia

nem todos podem fazer!

75

Às vezes, eu que não fumo,

tomo um cigarro por graça,

e as mágoas se vão no rumo

em que se vai a fumaça!

76

"Deus não falta a quem promete"

que não falta bem sei eu;

mas somente a Deus compete

dizer se me prometeu!

77

Não quero do bem alheio,

por muito prazer que dê:

Se o que era meu não me veio,

Deus há de saber por quê!

78

Ó quem cantando se deita

e cantando se levanta,

não sabe que a dor espreita

a alegria de quem canta!

79

Não choro a dor que me pesa

na ausência de teus agrados:

sei que Deus nunca despreza

os que vivem desprezados!

80

Cantando aprendi um dia

que, no mundo sofredor,

qualquer mostra de alegria

é o disfarce de uma dor!

81

A Lua faz com seus linhos,

nos teares do firmamento,

o lençol dos pobrezinhos

que estão dormindo ao relento!

82

Todo amor, em vez de amor,

pode amanhã ser saudade,

perdão, ou seja o que for;

não pode ser amizade!

83

Quando o demônio se apossa

de um coração de mulher,

faz escândalo, faz troça

dando amor a quem quiser!

84

Só quem viu a terra adusta,

a que o céu não dá mais água,

é que sabe o quanto custa

suportar sem pranto a mágoa!

85

Marias! ... A dos Prazeres

chora, triste, seus amores,

enquanto, em seus afazeres

canta, feliz, a das Dores!

86

Para a mulher desgraçada,

que se desgarrou na vida,

o mundo é sempre uma escada

de interminável descida!

87

A vida vai, de tal sorte,

nos matando devagar,

que, enfim, quando chega a morte,

não há mais o que matar!

88

Noite! Deus ergue a bateia

do imensurável garimpo,

e o estelário relampeia

no céu azulado e limpo! ...

89

Mesmo sem graça a anedota

provoca, às vezes, risada:

quando a conta um idiota

que tenha cara engraçada!

89

A Esperança se revela

em cousa bem natural,

um sapato na janela

numa noite de Natal!

90

Fogo oculto na macega

faz a cinza fumegar;

quando o amor ainda fumega

não acabou de queimar!

91

Quem diz que guarda segredo

e vai confiá-lo a alguém,

há de, mais tarde ou mais cedo,

contar aos outros também!

92

As rosas dos meus caminhos

murcharam na vida inquieta;

por isso é toda de espinhos

minha coroa de poeta!

93

Lembra a trova, quando brota

bem simples do coração,

a água fresquinha da grota

que a gente bebe na mão!

94

Resguardando teus carinhos,

provoquei rixas odiosas:

todos são contra os espinhos

porque defendem as rosas! ...

95

As vezes só porque eu ande

sem encontrar o meu bem,

acho este mundo tão grande

e tão vazio também!