ANÍS MURAD LAMAR  nasceu no Rio de Janeiro no dia 08 de julho de 1904, filho de Murad Sallum Lasmar e Maria Antun Lasmar, de origem libanesa. Compositor musical, autor de vários sucessos; ator teatral cômico.  Na Trova, foi, ao lado de Colbert Rangel, o primeiro a obter o título de "Magnífico Trovador" em Nova Friburgo, após sair-se vitorioso nos três primeiros Jogos Florais, em 1960/61/62. Ironicamente, também o trovador que por menos tempo desfrutou desse título, desde maio (quando o conquistou), até o dia 23 de outubro de 1962, quando desencarnou.

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os dados a seguir foram extraídos de:
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959

 

Anis Murad
Uma Revelação dos Jogos Florais
* * *

     Se a iniciativa da realização de Jogos Florais , no Brasil, não tivesse outros méritos,
esse bastaria para justificar a sua criação: a possibilidade de permitir a revelação
de verdadeiras vocações Poéticas.
     Anis Murad, ele próprio o confessa, deve aos Jogos Florais de Friburgo a oportunidade
 de ter descoberto que trazia em si, sem saber, a "graça" da trova.
     E concorrendo aos dois primeiros Jogos Florais, surgiu logo vitorioso, colhendo prêmios
 a mancheias. O tema dos I Jogos Florais de Friburgo, foi  o Amor. Cerca de 2.500 trovas foram enviadas,  trovas mandadas dos mais distantes Estados brasileiros, e até de Portugal e Províncias Ultramarinas. Anis Murad conquistou o segundo lugar.  Sua trova, é uma pequenina jóia de lirismo, espontaneidade e graça:

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem,
só pelo bem que há na vida
de se poder querer bem.

     Aquele balanceio das palavras, uma espécie de gingar feminino quando caminha, característica das boas trovas, - não fosse a trova mulher; aí está, no trocadilho, alternando nos dois versos finais as expressões "só pelo bem" e "querer bem", além do efeito, tirado antes, pelo contraste entre "o mal", e "só pelo bem."
     Todo mundo sabe que não há propriamente regras para a confecção de uma quadrinha. Mas a verdade, é sendo como é, um tipo por excelência de poesia popular, nascida quase para ser ouvida, a trova possui elementos de composição que se firmaram através de seu uso generalizado, por cantores populares, e por poetas de formação literária. E um destes elementos, é sem dúvida, esse balanceio das palavras a que me referi citando a trova de Anis Murad, e que dá à trova aquele ritmo dos quadris de uma mulher, quando a vemos, depois que passa por nós...
     Eu diria, na “nossa língua”:

Ah! trova com que me enleio...
Tens um gingado qualquer
que lembra esse bamboleio
do corpo de uma mulher...

* * *
     Sendo um dos vencedores, Anis Murad foi a Friburgo.
     Eu lhe avisara sobre os encantos da cidade. Ei-la!

“Jardim Suspenso” na serra
dentro da Serra do Mar,
é o céu mais perto da terra
que Você pode encontrar...”

     Emocionou-se com as festas. Entusiasmou-se com a vitória alcançada, e preparou-se logo para concorrer aos II Jogos Florais. Mandando suas trovas sobre, SAUDADE, que era o novo tema do Concurso, Anis Murad conseguiu classificar entre as vinte primeiras trovas, nada menos que cinco! Conquistou o 1.º, 5.°, 11.°, 17.° e 20.° lugares. Chegamos a “ameaçá-lo” de mandar incluir um item especial no Regulamento dos futuros Jogos Florais, excluindo-o como concorrente... Era demais... O poeta açambarcara os Jogos Florais...
     E haviam sido mandadas para os II Jogos Florais mais de 10 mil trovas, classificando-se, inclusive, em 7.° lugar, uma poetisa portuguesa, Ana Rolão Preto Martins Abano, de Benguela, Angola, África Ocidental Portuguesa.
     Na solenidade de encerramento dos II Jogos Florais no Centro de Arte, de Friburgo, quando são entregues os diplomas, troféus e prêmios aos trovadores vitoriosos Anis Murad falou em nome de seus companheiros. Seu discurso foi... em trovas. E como é além de um trovador lírico, um trovador espirituoso e alegre fez referências especiais às autoridades presentes, inclusive ao então Ministro da Educação, Brígido Tinoco.
     As trovas de Anis Murad para os II Jogos Florais, apresentavam uma característica: falavam quase todas em Maria. Eram trovas sobre a saudade, mas  a saudade era da... Maria.
Por uma estranha coincidência, na mesma ocasião dos Jogos Florais, a cidade de Campos promovia pela, segunda vez o seu Salão Campista de Trovas, com exposição e concurso
de trovas, sendo o tema, - Maria.  Anís Murad, entretanto, preferiu mandar as suas quadrinhas para o Concurso de Friburgo,  e venceu galhardamente, de braços dados com a saudade... de sua Maria...
     Eis as suas trovas vitoriosas:

em 1.º lugar:
Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia...
Dentro da casa: saudade,
e na saudade: Maria!

em 5.º lugar
Debaixo de nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo - Maria.

em 11.º lugar
Saudade - rede vazia
a balançar tristemente...
minando a melancolia
que dorme dentro da gente.

em 16.º lugar
Essa Maria - que existe
chorando, nos versos meus,
foi a saudade mais triste
que alguém deixou num adeus.

em 20.º lugar
No meu ermo, "Soledade",
alguém bateu, certo dia.
-"Quem é? - "sou eu! a Saudade!"
-"Meu Deus! a voz de Maria!..."

* * *

     Tão excelente trovador, Anis Murad devia ser português... ou filho de portugueses Entretanto é filho de libaneses, e seu nome completo é Anis Murad Lasmar.
Trabalha no comércio, é contador. Entretanto, o que é mesmo na vida, é cantador.
Os Jogos Florais de Friburgo vieram retirar-lhe a tempo, escondido no peito, um
coração cheio de cantigas.
     Primogênito de oito irmãos, nasceu, segundo nos contou, de sete meses,
e teve por incubadeira uma caixa de sapatos. Vamos dar-lhe a “viola”:

De sete meses gerado
vim ao mundo temporão...
Já fui tesouro guardado
em caixa de papelão...

Vim de longe, despachado
numa velha embarcação...
Sou nacional fabricado
com peças de importação...

     Como já acentuei, a trova de Anis Murad não é apenas lírica. Anis é um grande emotivo, um grande sentimental Está na raça, no sangue. Mas é também, por temperamento, um espírito alegre, às vezes até, satírico. É de família. Seu irmão, Jorge Murad, (que teve uma trova classificada nos Jogos Florais de Pouso Alegre), é um excelente contador de histórias, um humorista que tem explorado nos programas de rádio e em audições teatrais, com muita graça, o tipo tradicional do “turco”, imitando-lhe a fala e os cacoetes.
     A infância de Anis ele a passou no bairro de Noel Rosa, - em Vila Isabel, - e sua juventude, no Andaraí. Interessou-se pelo teatro, foi ator, e diretor de ensaios. Colaborou com Plácido Ferreira, integrando o elenco do seu “Teatro pelos Ares”; participou do “Teatro Sherlock” e de outras programações em várias emissoras cariocas. Por isso, o assunto lhe deu esta quadrinha:

O teatro é a vida da gente.
A Vida, é teatro também.
Mas só no teatro se sente
a vida que o teatro tem.

     Anis acabou sendo Diretor da Casa dos Artistas.  Antes de se descobrir trovador, já fazia versos. E um dos maiores sucessos de  nossa música popular e carnavalesca, o samba de parceria com Luiz Pimentel e  Manoel Rabaça,

“Bebida, mulher e orgia”, tem letra sua.
Quem não cantou aqueles versos?

“É a lei do vagabundo
Quem bebe sente alegria
Sem mulher, sem orgia
Não há prazer nesse mundo

Na bebida afogo a dor
Na mulher vejo o prazer
Na orgia encontro até
A razão do meu viver

Mas se a bebida faltar
E a mulher fugir de mim
Na orgia hei de encontrar
O princípio do meu fim.”

     E por falar em bebida: Anis “glosou” o seu próprio nome, nesta trovinha:

Eu seria bem feliz
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente ...“para ti”...

     Eis, em poucas linhas, um rápido perfil deste trovador “libanês”, que encontrou
na trova portuguesa a língua de seu coração brasileiro.
    Anis Murad nesta “Coleção Trovadores Brasileiros” é um justo motivo de satisfação para mim e para Luis Otávio, os seus organizadores.  Sua presença é a comprovação de que, iniciativas como os “Jogos Florais de Friburgo”, não são apenas movimentos culturais de incremento às letras e à poesia, mas a oportunidade para que verdadeiras vocações encontrem as condições necessárias para se revelarem e se afirmarem como valores.

J.G. de Araujo Jorge
janeiro - 1962
                     
in

 Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959

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Anis Murad
* * *

n.01
Debaixo da nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo - Maria.

n.02                                                                                n.03
Não, saudade, não açoite               Estes teus olhos brejeiros!
 o carro de bois, dolente,               - ah! se eu pudesse, meu Deus!
gemendo dentro da noite...               por noites, dias inteiros,       
chorando dentro da gente...               ver meus olhos nos teus!       

n.04                                                                               n.05

Saudade - rede vazia                    Manhã de sol, que alegria!
 a balançar tristemente...               De pés descalço, meu ser,
   ninando a melancolia               é um garoto que assovia,
que dorme dentro da gente.               na alegria de viver.                 

n.06                                                                                           n .07
Quando eu partir - não sei quando,        Saudade - tristeza imensa,                   
não ponhas, minha querida,               por meu amor que não vem.     
teus olhos, lindos, chorando,               Saudade - tristeza imensa,          
sobre os meus olhos, sem vida.               de alguém ausente... de alguém!     

n.08                                                                           n.09
 Disseste "não", fiquei triste,               Na noite triste, vazia,              
mas disseste "sim", depois.               ouvi a voz de meu bem.         
Maldito "sim", que persiste,               Corri louco de alegria,                
no eterno "não", de nós dois.               abri a porta - ninguém!              

n.10                                                                              n.11
Mandei a saudade, um dia,               Vendo-a passar, ficou triste,   
        à procura de meu bem,               quando alguém lhe perguntou:
desse meu bem - que é Maria,               - E aquele amor... inda existe?     
mas que é saudade - também...               - Não! - respondeu... Já passou!...

n.12                                                                                       n.13
Com a luz, pai, que me deste,               Saudade - doce maldade,        
do teu meigo olhar profundo,               que a gente sente e não vê,    
eu vejo - no mundo agreste,               mas eu vejo esta saudade,    
toda a beleza do mundo.               esta saudade é você!...   

n.14                                                                                n.15
  Saudade - sonho, desejo,               Olho o boi, de olhar parado,
  lembrança, recordação...               que me fica amargamente...  
Um beijo - que já foi beijo,               Parece que o desgraçado      
um amor - que foi paixão...               tem piedade da gente.           

n.16                                                                           n.17
  Bebida da mesma adega,               No meu ermo - "Soledade",
serás igual a teu pai...               alguém bateu, certo dia.
      Tu, Anis novo - que chega,               - "Quem é?" - "Sou eu, a Saudade!"
     Eu, Anis velho - que vai...               - "Meu Deus! A voz de Maria!"

n.18                                                                                             n.19
  Amo no amor a ternura,               Guardo esta crença comigo,
a meiguice, a suavidade;               com carinho e devoção:       
o amor - que é todo doçura,               todo mundo é meu amigo,        
o amor - que é todo amizade.               todo amigo: - meu irmão!          

n.20                                                                               n.21
Se todo mundo quisesse,               Vem o trem cortando a serra,
    melhor o mundo seria,               no seu grito lancinante.           
se todo mundo soubesse,               Talvez saudade da terra,         
do nosso mundo, Maria.               que foi ficando distante.         

n.22                                                                                 n.23
Mente, descaradamente,               Não sei se foi por maldade,
        o coração da mulher.               não sei se foi por vingança:  
Diz que não gosta da gente,               mataram minha saudade...      
  só pra dizer que nos quer.               roubaram minha esperança...

n.24                                                                               n.25
   Tens o sentido profundo               No teu grande simbolismo,
da fé - que é paz, é perdão!               é um cruzeiro de luz,             
      Braços abertos ao mundo,               de um abismo ao outro abismo,
  portal do céu - redenção!               dos homens até Jesus!...     

n.26                                                                                   n.27
   Mãe que traz uma criança,               Esperei-a toda a vida...  
        nas entranhas de seu ser,               Nessa espera envelheci...
carrega a própria esperança,               Ela - de verde, vestida    
            no filho que vai nascer.               passou por mim e não vi... 

n.28                                                                                   n.29
           Na triste quadra da vida,               A minha alma não se cansa,
                   rima-se a felicidade,               - embora  desiludida,             
             com esta rima querida,               de acalentar a esperança,    
           que se rima na amizade.               que é o acalanto da vida.     

                               n.30                                                                n.31
                Olhos risonhos, infindos,               Esperança!... quem diria,      
que choram de quando em quando:              quem diria - que a esperança
           sorrindo - lindos, tão lindos;               fosse os olhos de Maria,       
              feios, tão feios - chorando...               vagando em minha lembrança.

                                        n.32                                      n.33
      Não estaria amarrado,               Achei uma forma nova
        pela igreja e pretoria,               de tornar-me trovador:
    se não tivesse encontrado,               nossos lábios - uma trova
     este encanto de Maria!               na doce rima do amor.  

                                   n.34                                      n.35
Mesmo velhinho e cansado,               Deixa a vida do menino
não sei que estranha magia,               viver a vida, meu bem,  
        fico um saci, assanhado,               ninguém muda o destino,
           quando te vejo, Maria.               nem a vida de ninguém!...

                                           n.36                                     n.37
    Que medida desmedida               Nós nos queremos, querida,
      medir as misses, assim.               com tanta simplicidade,           
Com medida ou sem medida               que o maior bem desta vida,     
      são na medida prá mim.               não vale a nossa amizade!      

                                       n.38                                    n.39
         De sete meses gerado,               Cada um de nós traz consigo,
      vim ao mundo temporão.               sua própria salvação:             
 Já fui tesouro guardado,               em cada ser - um amigo,
        em caixa de papelão.               em cada amigo - um irmão

                                         n.40                                    n.41
            Só senti a luz da vida,               O Amor - que tudo redime,
com mais calor e mais brilho,               não tem a sublimidade,       
     quando tu deste, querida,               do querer bem - que se exprime,
       a luz da vida a meu filho.               no bem querer da Amizade!

                                     n.42                                    n.43
Por um beijo concedido,               Não sei de pior castigo
ficou desfeito o noivado;               nem de maior maldição:
        pois o futuro marido,               não ter alguém um amigo
        sentiu-se logo enganado.               nem o olhar meigo de um cão.

                                        n.44                                   n.45
 Surpreendeu-me o garoto,               Do meu quarto de solteiro
em colóquio com meu bem.               - já cansei de te pedir,        
   E diz, num riso maroto:               vem buscar teu travesseiro,
- Eu quero beijar, também!               que não me deixa dormir!...

                                    n.46                                    n.47
Não sei porque a lembrança,               Do meu berço pequenino,        
de uma florzinha que cai,               fizeram tosca jangada,      
faz-me pensar na criança,               que voga ao léu do destino,
      abandonada, sem pai,               para o destino do nada.     

                                      n.48                                    n.49
Terás, mulher, se quiseres,               Maria - meu sol, meu guia!
o mundo todo a teus pés.               Maria - Mãe do Senhor!   
Porque o mundo  é das mulheres,      Minha santa mãe: Maria!                      
  que forem como tu és!               Maria - meu santo amor!

                                                n.50                                    n.51
A vida é mesmo engraçada:               Simples jardim sobre a cova,
  correr, correr, para enfim,               trevos repousando em calma
tombar, ao fim, para o Nada               - Em cada trevo uma trova,      
   no eterno nada - sem fim...               em cada trova a minha alma...

                                       n.52                                    n.53
Há uma lâmpada encantada,               É, francamente, bobagem,     
acesa no coração,                                       possuir televisão  
   que tem a chama sagrada,               se eu posso ver tua imagem,
que se chama inspiração.               no vídeo do coração.        
 
                                     n.54                                    n.55
Aqui jaz, na quadra imerso,               As trovas, quando eu as faço,
um vate, vivo e mordaz.               faço-as de mim para mim.
    Fez sepulturas, do verso,               Vou dizê-las... que embaraço...
e sepultou-se; aqui jaz.               Estremeço... fico assim..  

                                   n.56                                    n.57
Envelhecer! - que tristeza,               Depois de sua partida,             
   sentir a vida fugir                              mais a possuo, porque:
e ter a triste certeza,                             toda a saudade da vida,
que a morte certa há de vir.               ficou em mim - de você!            

                            n.58                                    n.59
Não sejas má nem injusta,               Eu amo a vida, querida,        
nem faças mal a ninguém.               com todo o mal que ela tem!
- O querer bem nada custa,               Só pelo bem - que há na vida
é tão bom fazer o bem.               de se poder querer bem.

                                       n.60                                    n.61
Morre o dia, tristemente,               Esses teus olhos tão lindos,
na tarde crepuscular...               misteriosos, profundos,   
Dá uma saudade, na gente,               são dois abismos infindos        
   ao ver a noite chegar.               dois precipícios - dois mundos!...

                                    n.62                                    n.63
Olhas pra mim, na verdade,               Eu só, tu só,  dois sozinhos...
mas não me vês - este olhar               O amor chegou certa vez,             
perdido está, na saudade,               misturou nossos trapinhos,      
que ficou noutro lugar...               somos um mundo: - nós três!

                                     n.64                                     n.65
Tudo passa - na verdade,               A vida é noite fechada,           
passa tudo - sem parar.               num coração sem amor.      
Só não passa esta saudade,               Amor é Luz - madrugada!           
que ficou no teu lugar.               Raio de Sol - Esplendor!   

                                       n.66                                     n.67
Essa Maria - que existe,               Saudade - dor repartida        
chorando nos versos meus,               entre o que fica e o que vai.      
foi a saudade mais triste,               Uma esperança perdida        
que alguém deixou num adeus!               num sonho azul que se esvai.         

                                    n.68                                     n.69
Menina - pobre, perdida,               Também nas flores existe
que a vida jogou ao chão,               uma saudade de amor...    
descendo a rampa da vida               Orvalho - saudade triste,   
rolando de mão em mão...               lacrimejando na flor...       

                                                n.70                                    n.71
Nas trilhas de Deus, teremos,               Só a saudade é que explica
          o caminho justo e certo,               por que foi que ele chorou:
para esse Deus, que não vemos,               esse vazio - que fica,               
mas que nos vê tão de perto.               no vazio - que ficou...        

                                      n.72                                     n.73
Cansado estou da esperança,              A minha alma -   agradecida,
cansado estou do meu ser,                  elevo a Deus com fervor,   
da própria vida - que cansa,                pelo amor - maior da vida!
vivendo, assim, sem viver...                Que nasceu do nosso amor.

                                           n.74                                     n.75
Perdoa, mãe a heresia!               Tal qual ingênua criança
Mas não posso mais rezar:               nas noites de São João,       
         fui dizer - Ave Maria!               vou soltando as esperanças,
     e comecei a chorar...               como quem solta balão!...

                                      n.76                                     n.77
As trovas feitas a esmo,               Santo Antonio, padroeiro,
   são difíceis de fazer:               que já casou tanta gente,
conversa contigo mesmo,               viveu só, morreu solteiro...
que a trova sai sem querer.               Ó santinho inteligente!...        

                                n.78                                     n.79
Um vagido de criança               Vejo-te, mãe, todo dia
        sacode todo meu ser:               que a tarde cai pra morrer
era o pranto da esperança               e que a voz da Ave Maria
         que gritava pra viver.               vem minh’alma enternecer...

                                    n.80                                     n.81
Guarda, meu bem, na lembrança,               Sempre que faço uma prece,       
        esta lembrança do bem:               não sei que estranha visão,
quem não tiver esperança,               a minha mãe aparece,      
seja a esperança de alguém!...               sorrindo em minha oração.     

                                           n.82                                     n.83
O trovador - simplesmente,              Pobre amor - triste saudade!...
          é uma pessoa feliz;               Saudade - triste lembrança!..
     se às vezes diz o que sente,               De um grande amor - na verdade,
nem sempre sente o que diz.               que não passou de esperança!...

                                        n.84                                     n.85
Ao ve-rme o verme me diz,               Dá tantas voltas a vida,           
depois de me haver provado;               e a gente, atrás, a correr...          
            bonito!... bebi anis...               Que gente doida, varrida!          
     Vou ficar embriagado...               Correr tanto, pra morrer!         

                                 n.86                                     n.87
O destino predestina,               Tens no coração fecundo,
destinos da nossa vida...               um patrimônio seguro;          
A minha invertida sina,               essa riqueza do mundo:       
deu-me uma sina invertida...               ser bom, ser justo, ser puro.         

                                           n.88                                      n.89
Que será dessas crianças,               Esses balões e as fogueiras,
sem luz, sem teto, sem pão...               trazem à minha lembrança,        
Uns farrapos de esperanças,               as esperanças fagueiras,           
         de uma triste geração!               dos meus tempos de criança!...

                                   n.90                                      n.91
Tenho pena das crianças,               Eu seria bem feliz,              
andrajosas, semi-nuas,               das mágoas que já sofri,
malbaratando esperanças,               se pudesse, sendo anis,       
pelas sarjetas das ruas!...               ser somente para ti...          

                                           n.92                                     n.93
Meu coração desconhece,               "É bebida apetecida,            
        a raiva, o ódio, o rancor,               - de gostosura sem fim...            
Quanto mais vive e padece,               Se bebo desta bebida,              
mais vida tem para o amor.               eu fico cheio de mim...              

                                n.94                                      n.95
             Eu nada tenho de meu,               Alô!... Quem fala?... Esperança?....
          por isso vivo a cantar               - Um momento!... Vou chamar!...
a graça que Deus me deu:               Esperei... - pobre criança           
mulher, um filho - meu lar!               que envelheceu a esperar!...      

                                       n.96                                      n.97
Hei de esperar-te, querida,               Pode ir! Tem liberdade,         
nessa esperança, sem fim,               de levar o que quiser!               
de esperar-te toda a vida,               Só não me leve a saudade,      
se a vida esperar por mim!               que é seu retrato, mulher!         

                                      n.98                                      n.99
Que pobre vida - vivida               Maria, só por maldade,    
de muitos amigos meus;               deixou-me a casa vazia...   
desencantadas da vida               Dentro da casa: saudade!
sem crença, sem fé, sem Deus.               E na saudade: Maria!                   

                        n.100
Não   desespere,   querida,
que a vida foi sempre assim:
uma   esperança   perdida
que só se encontra no fim...