João Freire Filho

     JOÃO FREIRE FILHO  nasceu no Rio de Janeiro, capital, em 29 de maio de 1941. Cursos de Bacharel pela Faculdade de Letras e Licenciatura pela Faculdade de Educação, ambas da UFRJ. Também em ambas foi professor, tenso-se aposentado após mais de 35 anos de serviço. Foi também diretor do Colégio de Aplicação daquela universidade.

    Iniciou-se na Trova em 1979. Sua primeira premiação foi em São Bernardo do Campo, no mesmo ano. Magnífico Trovador(gênero "líricas e filosóficas") por Nova Friburgo. Ex-presidente da UBT - União Brasileira de Trovadores. O "Trovador Onírico' lançou, em 2007, o brilhante livro de trovas "Entre achados e perdidos".   Um incorrigível amante da natureza em geral.              Falecido no Rio, na noite de 06 de agosto de 2012.

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TROVAS LÍRICAS E FILOSÓFICAS



Quem tem a luz do saber,

muito mais que outro qualquer,

tem de cumprir o dever

de ser luz... onde estiver!

Por tudo que me tem dado,     (co-vencedora UBT Rio de Janeiro - 1990)

pelo riso... pelo pranto,

Destino, muito obrigado!

Nem sei se mereço tanto...



Na vida, que te conduz

às mais diversas pelejas,       (3º lugar Ribeirão Preto, 1993)

se não puderes ser luz,

que, ao menos, sombra não sejas!

Sou criança e, de alma nua,

o sonho em minh'alma cresce...   (Bandeirantes 1996)

E há ruas, na minha rua,

que só meu sonho conhece!



Distante do olhar das ruas,

num sonho que me enternece,

em nosso céu brilham luas                      (Nova Friburgo 2002)

que só nosso amor conhece!...



Se pregas o bem fecundo,

cuidado! Modera o tom...

Não é com gritos que o mundo              (Vencedora Niterói 1993)

há de aprender a ser bom!

Se a Terra vive em conflitos ,

sangrando, de guerra em guerra ,     (Menção Especial Niterói 1993)

é com voz branda... e não gritos ...

que se há de ter Paz na Terra!

Não carrego esse profundo

receio, próprio de ateus:

se eu creio no fim do mundo,

então... eu não creio em Deus!



Liberdade -- sentinela

da Paz, em qualquer lugar!

E quem não lutar por ela...

não tem mais por que lutar!



Nenhuma busca é perdida

quando um sonho nos embala:

-- Felicidade, na vida,

também consiste em buscá-la!



A saudade é dependência...

É meu vício, em tal medida,

que você se fez a ausência

mais presente em minha vida!



Hoje, em meu leito, sem ela,

enquanto resisto ao sono,

a Saudade é sentinela...

dando plantão... no abandono!



Imperfeito, eu rogo, aflito,

por nosso amor, que é perfeito:

-- Não faças de mim um mito...

que mitos não têm defeito!



Lembro a infância, a adolescência...

a minha jornada, enfim...

Que acervo de experiência!

Mas que saudade de mim!...



Nada há que se me oponha...

nos rumos do dia-a-dia!

Travessia de quem sonha

não é qualquer travessia!...



A saudade não permite

nem que eu sonhe um novo amor...

Tua lembrança é um limite

que eu não consigo transpor!



Não tolham minha vontade,

mesmo em risco de fracasso...

Quero ter a liberdade

de errar por meu próprio passo!



Palmares foi destruído!...

Veloz, a notícia corre...

E morre o negro, vencido,

por mais um sonho que morre...



Lutando por ideais,

mesmo à beira da utopia,

tenho enfrentado os "jamais"

com meus "sempres" de ousadia!



A Terra vive conflitos,

sangrando, de guerra em guerra,

e é com voz branda... e, não, gritos...

que se há de ter Paz... na Terra!



Meu coração se acautela

e, imerso em desilusões,

faz da razão sentinela...

contra novas invasões!



Meus ideais mais risonhos

correm livres, sempre em frente,

numa corrente de sonhos,

que rompe qualquer corrente!



De seu saber não se gabe

nem ao saber seja mouco:

-- Quanto mais a gente sabe,

mais sabe... que sabe pouco!



É cartomante e adivinha...

mas não lê, no meu semblante,

que eu sonho que seja minha...

justamente a cartomante!...



A lua, que nos clareia,

é diferente de quem,

recebendo luz alheia,

não ilumina ninguém!



Ela passa... e, com seus passos,

enfeitiça-me o bastante...

para eu sonhar, nos meus braços,

esse feitiço... ambulante!...



O saber... saber, de fato,

é silêncio de humildade...

que prefere o anonimato

aos ribombos da vaidade!



Dos meus tempos mais risonhos

descubro, agora, os segredos:

-- cabia um mundo de sonhos

no meu mundo de brinquedos!



Em toda seresta existe,

em meio às sonoridades,

o tom de um acorde triste...

que acorda velhas saudades!



A distâncias não limito

meus ideais, cheios de ânsias:

quem tem sonhos de infinito

não pode medir distâncias!



Meus momentos de ansiedade,      (Menção Especial em Rio Novo/MG - 1997)

sem teu amor, que me acalma,

são fogueiras que a saudade

faz no arraial de minh'alma!



Floresta amiga, perdoa

o fogo, a serra, a agressão:

-- a Humanidade ainda é boa...     (Menção Especial em Taubaté - 1989)

Certos homens é que não...



Há tanta gente em delito,

cada vez com mais poder,

que a gente transforma em mito

quem cumpre um simples dever!...



Na tua ausência, meu fado

tornou-se eterna contenda:

corto os laços do passado,

mas a saudade os remenda!



É, talvez, o último abraço...

Vais partir... Apita o trem...

E o apito, cortando o espaço,

corta minha alma... também!



Fracassos não me consomem,

tropeços não me detém:

-- é nas derrotas que um homem

revela a fibra que tem!



É quando o mar se encapela,

e a tempestade é constante...

que a Vida testa e revela

a fibra do navegante!...



Tantas lágrimas, no peito,

a Vida me fez guardar,

que agora, meio sem jeito,

já nem sei se sei chorar...



Sonhador, Poeta... e amante

de quanto a vida me dá,

que importa a Lua distante,

se os meus sonhos chegam lá?!...



Por sentir bem mais escasso

o tempo... e mais curta a vida,

agora... tudo que eu faço,

parece uma despedida!



Pura, meiga, olhar risonho...

Mais linda que outra qualquer!

Meu Deus! A mulher que eu sonho

é um sonho... Não é mulher!



Quem semeia o grão ferino

do mal que o mal faz crescer,

não vá culpar o Destino

quando a colheita doer!



Teu retrato colorido,

num sorriso meigo e franco,

torna menos dolorido

meu presente... em preto-e-branco!



Tão agredida e indefesa! -,

por não lhe ouvirmos a voz,

chora, agora, a Natureza...

Depois, choraremos nós!



Quando a dúvida transpira,

julgar é temeridade:

muitas vezes a mentira

veste as roupas da verdade!



As revoltas não têm fim

e explodem cada vez mais,

que a fome acende o estopim

das convulsões sociais!



Da ternura ao desvario...

Do desvario à ternura,

nosso amor vive no fio

da mais sublime loucura...



Cantando terno estribilho

e esquecendo que era escrava,

Mãe Preta aleitava o filho

de quem os seus açoitava!...



A Verdade anda tão rara,

que a Mentira, sorridente,

já nem sequer se mascara

para enganar tanta gente!



A tormenta, que atordoa,

não distingue, em mar bravio,

a humildade da canoa...

da soberba do navio!...



De amigo... não quer que eu passe,

e esse limite não venço...

Mas, quando a beijo na face,

é nos seus lábios que eu penso!...



A vida me presenteia

com tamanhas alegrias,

que a tristeza é um grão de areia

na ampulheta dos meus dias!



De muitas buscas se tece

a vida... e, ao fim da jornada,

a quanta gente parece

ter vindo em busca... do nada!...



Com sabor de penitência...

de brinde contra a vontade,

vou bebendo a tua ausência...

em meus porres de saudade!



Bendita a fonte escondida...

que escorre e, por onde passa,

trazendo a graça da vida,

dá tanta vida de graça!



Tua lembrança eu cultivo

e a ela, aflito, recorro...

Porque te espero é que vivo;

porque não vens é que morro!



Não grito... e julgo tolice              (M. Especial Niterói 1995)

o gritar.. sem mais nem quando:

tudo que a Vida me disse

de melhor... foi sussurrando!



Se um sonho logo termina,

ante a névoa que te assalta,

não é culpa da neblina...

mas de um sol, que ainda te falta!



Neste mundo de homens loucos,

pelo orgulho que os consome,

para a soberba de uns poucos...

milhares morrem de fome!



São quase uma eternidade

minhas noites de abandono,

porque em meu quarto a Saudade

se deita, mas não tem sono...



Na guerra, por seus horrores

e nefandos resultados,

não existem vencedores...

Somos todos derrotados!



Sei da magia e poder

do amor, que edifica impérios...

Mas não sei de algum saber

que lhe decifre os mistérios...



Nas trajetórias da vida,

dos sonhos aos desenganos,

dá-nos o orgulho a medida

da pequenez dos humanos!



Saudade -- aquela torneira

que, apesar de bem fechada,

pinga e pinga... a noite inteira,

mantendo a insônia acordada!



Sem você, luto, em conflito,

contra o que a sorte me fez...

a ver se desfaço o mito

de só se amar uma vez!



Meus achados e perdidos

trazem de volta passados

que imaginava esquecidos

e, até, talvez... sepultados!



Cai na rua... Perde o tino,

no alcoolismo em que se esvai...

E, aos passantes... um menino

diz, inocente: -- "É meu pai"...



Não tive infância risonha,

mas em meu peito ainda vive

um guri que brinca e sonha

com brinquedos que não tive!



Quanta gente, nesta vida,

prefere, de forma errada,

a mentira bem vestida

à verdade... esfarrapada!



Se sabes, deixa que brote

a mansidão do teu ser...

Quem do saber faz chicote

renega o próprio saber!



Por minha própria vontade,

por nosso amor, por quem és,

eu gozo da liberdade

de escravizar-me a teus pés!



Que importa chamem de insano

este amor que nos arrasta?...

Que ele seja até profano,

mas seja amor... que nos basta!



Na vida, por mais distantes

--e em mares tão desiguais! --

somos todos navegantes...

no rumo do mesmo cais!



Primeiras letras... o giz,

a "tia" de amor profundo...

E uma inocência, feliz,

começando a ler o mundo!



Queira entender, por favor,

minha expressão de ansiedade...

Quero falar-lhe é de amor,

meu amor... Não... de amizade!



São tão poucos os esforços

para amparar a pobreza,

que eu chego a sentir remorsos...

pelo pão em minha mesa!



Sineiro que não se cansa,

meu Passado, sem piedade,

tange os sinos da lembrança,

para acordar a Saudade...



Nos banquetes de primeira...

da vida, em sua grandeza,

se eu consigo uma cadeira,

não me dão lugar à mesa!



Se há espantalhos no caminho,

não fujo, buscando atalhos:

faço -- ousado passarinho --

meus ninhos nos espantalhos!



No velho fogão de lenha

era o café bem torrado...

--"Ah, saudade, não me venha

com aromas do passado!"



É triste rir para o mundo,

com ares de quem domina,

e, num desgosto profundo,

chorar, sozinho, em surdina...



Se há trevas por onde vais,

busca a luz, perseverante

e caminha um pouco mais,

que a luz pode estar adiante!



Descendo da serrania,

Menestrel, o vento entoa

uma canção que arrepia

a pele azul da lagoa...



Quando vejo as quedas d'água

das cascatas, penso em mim:

-- represando tanta mágoa,

um dia... despenco assim...



Ante a dor... não esmoreço,

sabendo, em meu caminhar,

que a Vida não cobra preço

que não se possa pagar!



Fim do amor... Desiludidos,

sabemos juntos, mas sós,

que há silêncios inibidos...

tentando falar por nós!



Uma certeza se abriga

no peito do sonhador:

- Há sempre uma praça antiga

na história de um velho amor!



Conjunto 1º colocado no tema "Amor" em Nova Friburgo - 2009

Nosso amor, desde o começo,

tem tal alcance e medida,

que, quanto mais envelheço,

mais o sinto... além da vida!

O meu amor te ocultei!

Seguimos rumos diversos...

Passou-se o tempo, e, hoje, eu sei:

- permaneceste em meus versos!

Saudoso, namoro a Lua

e sinto, por seu feitiço,

que o nosso amor continua,

embora nem saibas disso!

Tenho um segredo profundo

- e é de amor... -e, tarde ou cedo, -

eu gostaria que o mundo

soubesse desse segredo!

Teu ciúme, cortando os laços

do nosso amor, me magoa...

mas meu amor abre os braços

e, por amor, te perdoa!

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Ah! Se esta brisa pudesse,

depois de tanger-me a lira,

levar-lhe, em forma de prece,

as trovas que ela me inspira!... 

A cada triunfo, eu peço

às luzes de mais além...

que as luzes do meu sucesso

jamais ofusquem ninguém!



 

HUMORÍSTICAS

Vai pra feira, numa boa,               (M. Honrosa N. Friburgo 2008)

com farta mercadoria...

enquanto, em casa, a patroa

atende outra freguesia...

Magriços, cheios de orgulho,        (Menção Honrosa Rio de Janeiro - 2008)

vão casar-se, ossos saltando...

E eu imagino o barulho

de toda essa ossada... quando!...

Com seus dois metros e tal,          (Vencedora Rio de Janeiro - 2008)

a solteirona assegura

não ter casado, afinal,

por falta de homem à altura!

Pediu o bobó bem quente               (ME Nova Friburgo 2007) 

o turista distraído,

e a pimenta – mais ardente –

deixou seu bobó... ardido!

É bem mais que um pesadelo        (Bandeirantes  2003)

a minha sogra ‘querida”...

Ela é um fio de cabelo

na sopa da minha vida...

Trovadora, em solidão,                  (ME Pouso Alegre 2003)

fala do "Muso", abalada:

-"Mal me dava inspiração...

e, agora, não dá mais nada!!...

- Qual o tempo, por favor,               (Vencedora em Garibaldi 2002)

do vôo Rio-Belgrado?...”

- Um minutinho, senhor...”

E o luso: - Muito obrigado!...

Que encrenca, junto ao jazigo,         (ME Bandeirantes  2001)

causa o defunto... esquentado:

- “Nada de tampa comigo,

que eu vou morrer... sufocado!”...

Alegava, após pilhado...                 (M. Honrosa Sete Lagoas 2000)

pilhando uma residência:

- A casa é de um deputado...

Concorrência é concorrência!”

Diz que é truque da patroa,                    (M. Honrosa Magé  2000)

que julga mestra em ardil:

há três anos em Lisboa,

e vai ser pai... no Brasil!

Com seu biquíni avançado

e uma carcaça esquelética,                             (9º lugar Pouso Alegre 1996)

é um verdadeiro atentado...

tanto ao verão... quanto à estética!

Vai pra pesca... apetrechado...                (Rio de Janeiro  1994)

Mas, sendo ao caniço avesso,

volta com peixe embalado,

etiquetado... e com preço!...

Na pesca, era o Chico Armando                (Rio de Janeiro  1994)

o maior ... pescava aos feixes...

até que o pesquei... pescando

num Entreposto de Peixes...

CURVA FECHADA - ele leu                         (6º lugar Nova Friburgo 1992)

na placa... e, em sua tolice,

parou o carro e desceu...

para esperar que ela abrisse...

Se em casa ele manobrava,

maquinista, um "trem" de filhos,         (Menção Especial em Juiz de Fora - 1989)

na rua a mulher levava

a vida "fora dos trilhos"...

Às vezes, cismando eu fico                     (2º lugar S.B. do Campo 1986)

e ideias assim me ocorrem:

- "Porco gordo e sogro rico

só dão lucro quando morrem"...

Cometeu esta tolice

aquela ciumenta crônica:                       (ME S.Bernardo do Campo 1984)

que o marido despedisse

a "secretária eletrônica"!

Eu lhe disse: “se eu passar

dos trinta, não casarei!”.

E ela: “enquanto eu não casar,                (Vencedora Rio de Janeiro 1983)

dos “trinta” não passarei...”

O cafuné deles dois,

na rede, foi arretado...                                 (1º lugar Fortaleza 1983)

E, nove meses depois,

batizou-se o resultado...

Deu fuzuê, acredite,                                    (2º lugar Fortaleza 1982)

com a filha do Aristeu,

quando a sua “apendicite”

com quatro quilos nasceu...

Faz-me rir certo vizinho:

a uma dona meio macha...

chamando-a "meu biscoitinho"

levou tremenda bolacha!...