O REENCONTRO (texto de Luiz Antonio Cardoso)

 

Certa vez, Lygia se apaixonou... tratava-se de um homem de cultura extraordinária, que contava com pouco mais de duas dezenas de primaveras do que ela, e era poeta. Era também professor, talvez o mais brilhante dos mestres que, com o velho giz dentre os dedos, levou a luz do saber a gerações taubateanas, ensinando e encantando com seu jeito único, inesquecível... verdadeiro apóstolo da educação.
Cesídio, certa vez, se apaixonou... ela era linda, jovem, repleta de amor e de carinho... tinha o dom da poesia assim como ele. E tinha, dentro de si, aquela eufórica e mágica missão de ensinar, de passar as gerações vindouras a sabedoria, o respeito, a necessidade de garimpar o conhecimento... tinha também a missão de informar, de registrar os fatos, como exímia jornalista. Ainda adolescente demonstrou sua liderança comandando o Batalhão Feminino do Ginásio Independência, desfilando nas paradas cívicas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, trabalhando em prol de São Paulo, mesmo sendo paranaense de Deodoro, atual Piraquara.
Cesídio, grande poeta que era, idealizava a musa inspiradora, que traria ainda mais brilho e daria retoques todos especiais ao lirismo que já inundava seu universo literário. Lygia buscava aquele companheiro que, de mãos dadas, poderia percorrer as trilhas desta existência e caminhar, com ela, enamorado, a fitá-la ternamente, rumo a eternidade.
No final da década de 1930 eles se casaram, e aquela paixão, como tantas com as quais nos deparamos, principalmente nos tempos atuais, poderia ter sua intensidade, o seu ápice, delimitado em alguns meses, ou mesno anos, e depois, tomar o processo natural da vida: ir diminuindo seu ritmo, até chegar aquele certo marasmo que, somente pela tão simples conveniência e um certo carinho mantém juntos dois corpos, embora as almas estejam distantes.
Mas com Cesídio e Lygia seria diferente... a cada dia a paixão se intensificava! A cada mês o carinho se tornava maior! A cada ano o amor, esse sentimento próprio de almas nobres e que deve ser construído com calma, com respeito e com o tempo, ia de edificando, tornando-se grande, lindo, notório.
Juntos, encantaram alunos pelas escolas taubateanas. Escreveram poesias que enterneceram até mesmo os mais insensíveis... contribuíram para a imprensa taubateana, regional e paulista, sendo que Lygia viria a fundar o Jornal “O Diferente”, pioneiro na imprensa taubateana, sendo um jornal feito por mulheres. Juntos, escreveram trovas, fizeram de Taubaté um celeiro de grandes trovadores, e fundaram no final da década de 1960 a Seção de Taubaté da UBT – União Brasileira de Trovadores, plantando a semente de Luiz Otávio nestas paragens e a fazendo brilhar.
Cesídio orgulhava-se de sua esposa, amada... e ela, polivalente, brilhante, lecionavaGeografia, ginástica, dança, canto e declamação. Como se não bastasse, era jornalista e diplomou-se advogada.
Lygia, assim como seu esposo, foi premiadíssima poetisa, trovadora e sonetista. Fez-se uma das grandes ativistas culturais de Taubaté, e preocupou-se com o coletivo, com o social, como poucos. Organizou festivais beneficentes. Fundou o Grêmio Arcádia; o Serviço de Proteção à Criança; o Clube do Lazer, a Sociedade Taubateana de Ensino. Durante décadas, trabalhou em prol dos menos favorecidos, organizando campanhas filantrópicas.
Lygia, assim como Cesidio, recebeu muitas merecidas homenagens e condecorações, inclusive o título de Cidadã Taubateana (1967), e já no terceiro milênio, tomou posse como membro efetivo da Academia Taubatena de Letras, na cadeira que tinha como patrono, seu amado Cesídio... sim, Cesídio Ambrogi, pois no ano de 1974 o mundo perdeu esse brilhante intelectual, que foi fazer suas trovas e lecionar no céu, entre ao anjos guardiões da poesia e outros sábios que, como ele, fizeram da educação suas principais missões!
Cesídio se foi, e entre olhares trocados, com palavras proferidas pela alma, que vai muito além do alcance dos lábios, disse a Lygia que a esperaria, para juntos habitarem a eternidade, entre poesias, carinhos, anjos, trovas, amor e Deus... Lygia, chorou... Cesídio pediu que ela demorasse... que não tivesse pressa... que ficasse neste mundo encantando a todos por muito tempo, lutando por um mundo melhor, escrevendo seus sonetos perfeitamente clássicos, suas trovas de escol. Lygia ficou... encantou... brilhou!
Cesídio a assistia, entre nuvens, mostrando aos anjos sua esposa e se orgulhando a cada estrofe... a cada boa ação...
E o tempo passou... Lygia fez muito após 1974... sempre pensando, com ternura, com paixão, em seu Cesídio... sempre se emocionando a lembrá-lo, em cada entrevista concedida, em cada conversa trocada, da qual tive a alegria infinda de participar de muitas, seja na UBT de Taubaté, ou na Academia Taubateama de Letras, ou mesmo no Clube dos 21 Irmãos-Amigos de Taubaté.
Sábado, dia 10 de março de 2012, Taubaté estava em festa com a literatura, com a realização da 2ª Expoesia de Taubaté, organizada pelo Movimento Poetas do Vale e pela Confraria do Coreto. Na Praça Santa Terezinha, centenas de metros de varais de poesia, declamações, trovadores, sonetistas, poetas concretistas, livres... atividades infantis, música de boa qualidade, discussões literárias... enquanto isso, na Câmara Municipal de Taubaté, havia uma comoção geral no velório de Lygia Therezinha Fumagalli Ambrogi.
Deus, em sua infinita sabedoria e bondade, escolheu justamente um dia onde os poetas e artistas estariam em festa, mostrando para a população suas poesias, suas artes e projetos, para levar com ele Lygia...
Lygia partiu, aos 96 anos, e numa comitiva celestial repleta de hinos poéticos, foi recebida com um fraternal a amoroso abraço por seu Cesidio... deram as mãos e caminharam... rumo a eternidade.
 
LUIZ ANTONIO CARDOSO