RIMAR OU RIMÁ, EIS A QUESTÃO

(texto de João Costa-Saquarema, postado em 21.11.2014)

 
            As letras das canções populares, embora lindas e ricas, nem sempre apresentam rimas corretas. É muito comum termos rimas como amar-será, amor-passou, vida-cantiga, distância-esperança, essas coisas. É que não há muita exigência a esse respeito quanto à composição de canções, na confecção das letras. O mais importante é a melodia e a mensagem. E mesmo na poesia moderna, na construção de poemas livres, a rima nem sempre acontece e nem sempre é importante. Mas o problema da rima sonora, a chamada falsa rima, embora comum nas canções e nos cancioneiros, nos versos de poemas caipiras, nos preocupa de certa forma, já que se discute tanto a questão das mudanças na arte de fazer trova. É que a trova é uma forma especial, que qualquer mudança lhe tira a característica de trova, o que não acontece com outras formas poéticas. Viram o que aconteceu com o soneto, mesmo com toda sua pampa e tradicionalismo? O Modernismo o corrompeu, quando poetas modernistas cismaram de compor sonetos sem rima e sem métrica. Claro que não eram sonetos, mas eles lhes davam o nome de sonetos e os apresentavam como tais. Mas sabemos que soneto só é de fato soneto se tiver pelo menos 14 versos, sendo dois quartetos e dois tercetos, com rimas, mesmo que não sejam rimas intercaladas nos dois quartetos. Mas vai discutir isso com um literato para ver o que acontece.

            O mesmo poderá acontecer com a trova se formos abrindo para certas mudanças. Principalmente no quesito rima. O que mais valoriza a trova, além da métrica perfeita e a criatividade do autor, é a rima perfeita, nos quatro versos, embora saibamos que há a tolerância  quanto à rima simples, do segundo verso com o quarto. Todo cuidado é pouco.

            A primeira questão que se discute é a aceitação das rimas céu-mel, abril-sentiu, sal-mau. Sabemos que essas rimas são falsas, lembrando a diferença de pronúncia por região. E se a língua é portuguesa, céu não rima com mel, nem sal com mau e tampouco abril com sentiu. E não se discuta mais. Não vamos banalizar a trova. Ela ainda é, graças a nós trovadores, a pura jóia da literatura brasileira.

            Tenho certeza que se abrirmos mão, aceitando esse tipo de rima, teremos no futuro quem reivindique também a aceitação de rimas como amor-chamou, amar-será, poder-você. E com razão, pois se trata de sonoridade. Pois se você prestar atenção, ninguém pronuncia amor, mas amô, nem falou, mas falô. Então seria rima no som. Entendeu?

            As discussões são válidas, mas sempre há o perigo rondando. Precisamos ter cuidado com o que reivindicamos. As regras existem, são perfeitas, deram certo até agora, por que mexer no que vem dando certo. Se a pessoa tem dificuldade de achar rimas para seus versos, faça poema livre. Trova é coisa séria. Qualquer coisa de quatro versos, com sete sílabas, com rimas falsas, ou composição pobre, é apenas versinho, quadrinha popular, essas coisas. Jamais uma trova.

          Trovadores meus Irmãos, vamos cuidar da trova, vamos preservar sua forma bela e perfeita, vamos lutar para que ela seja reconhecida no meio literário como uma composição poética de primeira grandeza e gênero literário de fato, estudado nas escolas, nas universidades. Lembrem-se que é a única forma poética que originou um movimento poético-literário no Brasil e existe por mais de cinco décadas. Não há notícia de nenhum outro movimento poético que tenha durado tanto nem que tenha sido originado por uma forma poética específica. Alguém já ouviu dizer de algum movimento em torno do soneto? Pois é, isso significa muito e deve ser respeitado.
E viva a trova perfeita, bela e pura. Seguindo o que escreveu o grande Adelmar Tavares:

Ó linda trova perfeita,
que nos dá tanto prazer!
Tão fácil depois de feita,
tão difícil de fazer.

 

João Costa é delegado da UBT na cidade de Saquarema/RJ