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 C A L O R   D O   I N V E R N O
 
Paradoxo? Não sei; mas saio à rua
e o sol é o mesmo velho sol do estio.
Parece que é o verão que se insinua,
reinstalando-se em pleno mês de frio...
 
Ou será que é o inverno que recua
sem querer aceitar o desafio
da massa de calor que se acentua,
exercendo absoluto poderio?!
 
Ombros nus e bermudas desfilando...
Parece praia...os homens observando
a garota bonita, de corpete.
 
E a japonesa, do seu banco alto,
olha atrás... e tem quase um sobressalto
com o tamanho da fila do sorvete!
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A I N D A   A   P R I M A V E R A...
 
O tempo corre em compasso inclemente,
levando pais, amigos, mocidade;
e um dia percebemos que saudade
é agora a sombra única e presente.
 
Não resistiram à fragilidade
os nossos sonhos bons de adolescente;
e outros, de fase ainda não descrente,
há quanto tempo jazem na orfandade!
 
As estações sucedem-se, entretanto;
não as atinge o nosso desencanto...
Verão, outono, inverno...Ah quem me dera
 

que abrindo essas janelas do passado,
eu sentisse que nada foi mudado
e que lá fora... ainda é primavera!
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C A S T R O   A L V E S - de Dorothy Jansson Moretti
            (1º lugar no Concurso de Poesias da Casa do Poeta Maçon do Brasil )

No fundo escuro da noite funesta,
faíscas rompem pelo céu, esteiras
que obedecendo a um ritmo, como em festa,
dançam ao vento, em espirais faceiras.
 
Quem dispara ao negrume, que detesta,
essas fagulhas, pelas mãos certeiras,
é um jovem cuja espada inflama e cresta,
acendendo a mais viva das fogueiras.
 
Gênio gigante de “Navio Negreiro”,
vive pouco, mas, nobre condoreiro,
atinge a crista azul da imensidade.
 
E em seu rasto, a luzir pelos caminhos,
resistindo à investida dos espinhos,
brilha a chama, sem par, da Liberdade.
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F O L H A S   E S P A R S A S    (de Dorothy Jansson Moretti)

Quando a tarde ao cair, toda dourada,
lenta transmuda em gradações cambiantes,
sinto minha alma, sensibilizada,
afinar-se ao sabor dos tons mutantes.

E os versos que componho em tais instantes
assumem cor ardente ou desmaiada:
vivos, do leve Alegro aos sons vibrantes,
tristes, do grave Adágio à dor velada.

São notas desprendidas da sonata,
dispondo um clima de jovial Cantata,
ou da Pavana o sufocado grito.

São folhas soltas, pelo vento esparsas...
Verdes ou murchas, voam como garças,
deixam meus sonhos no azul do infinito.
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V E N T O D E O U T O N O    (de Dorothy Jansson Moretti)

Da tarde ao tom sombrio me abandono,
e um clima estranho vem-me dominar.
Eu não sentira que já era outono,
nem precebera meu verão passar.

Agora o vento, em arrogante entono,
maltrata as folhas mortas a tombar,
mesclando-as pelo chão, sem lar, sem dono,
órfãs dos ramos nus a se agitar.

Também meus sonhos tombam lentamente
aos desenganos que os batem de frente,
nem mais resiste uma ilusão, agora.

E o vento torce a haste enrijecida
da flor despetalada e ressequida
de uma esperança que restou, de outrora..
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        U
M OLHAR SOBRE SOROCABA   (de Dorothy Jansson Moretti) 

Em pleno ciclo de tantas tropeadas,
quer de mulas, ou quer também de bois,
Sorocaba levanta as mãos armadas...
Mil oitocentos e quarenta e dois. 

Passa o século. A poeira das estradas              
vai-se apagando e vão florir, depois,              
as lindas laranjeiras carregadas...              
Mil novecentos e quarenta e dois. 

Os ciclos vão-se de outros distanciando...
Do bandeirante ao têxtil se afastando,
a indústria abre, imponente, o seu roteiro. 

E hoje, aos ventos do tempo e seus avanços,              
Sorocaba levanta os braços mansos,              
e torna irmãos... filhos do mundo inteiro.       

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             M U T A Ç Õ E S    (de Dorothy Jansson Moretti)

 Longe, no céu tão diáfano e sereno,
as nuvens brincam de fazer figuras;
traçam imagens, erguem esculturas,
 vivo painel sobre o horizonte ameno.

 Um cavaleiro em sólida armadura,
na torre de um castelo aguarda o aceno;
além, um monstro a baforar veneno,
aqui,  mansa ovelhinha toda alvura.

 Tal como as nuvens o destino é incerto,
em nossa vida as ilusões se agitam,
juntas, no tempo, às horas de amargura.

 Vento que insufla a areia no deserto,
mas cessa, enfim... e em nossa alma palpitam
os anseios de paz e de ventura.
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C A U S A   M O R T I S
 
Todo mundo que chegava
ao velório do Candinho,
penalizado, falava:
- Morreu como um passarinho.
 
            Um bebum que ali se achava,
            curioso, entre o burburinho,
            a cada passo escutava:
            - Morreu como um passarinho.
 
Chega alguém que, comovido,
pergunta-lhe ao pé do ouvido:
- De que a morte foi causada?
 
            E o bebum, em tom de prece:
            - Também não sei, mas parece
            que foi de uma estilingada.
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          P E N A   M OD E R N A
 
Vejo em álbum antigo um cromo desbotado:
uma pena bonita, as franjas reviradas,
imersas num tinteiro em formato quadrado
e ao lado as folhas de papel semi-enroladas.
 
Insinua-me à idéia um poeta debruçado
sobre um velho birô de bordas desgastadas,
tecendo num soneto o seu verso inspirado,
fina caligrafia, letras caprichadas.
 
E eu, com pena me acerto às coisas que mudaram
por esses anos tais, que apáticos rolaram
sem que lhes importasse a transição sofrida.
 
Mas meu computador é uma “pena” que acalma,
e ao passar-lhe meu verso, eu sinto... até tem alma
esse engenho tão bom, que facilita a vida!
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            V E L H O   J A R D I M
 
Contemplo, da janela, o antigo jardinzinho
que guarda de uma fase alegre e distanciada
camélias, manacás, e lá no seu cantinho,
uma velha roseira ainda engalanada. 
 
Lembro, na primavera, os junquilhos branquinhos,
jóias de minha mãe, paciente e delicada,
que gratos retribuíam-lhe os ternos carinhos,
envolvendo-a e a tudo em aura perfumada.
 
Partiu a boa fada... foram-se os junquilhos...
Vivendo de saudade, quais diletos filhos,
camélias, manacás e a rosa solferina,

resistem no jardim, leais e dedicados,
difundindo no ambiente aromas encantados,
a evocar de uma vida a essência peregrina.