HEGEL PONTES - renomado poeta, residente em Juiz de Fora/MG.

IRONIA DE NATAL

Disseram que meu pai tinha viajado,
mas não saiu de mala nem sacola...
E tudo desde então ficou mudado.
Venderam meu carrinho e minha bola...

E aos poucos, eu fui vendo, desolado
morrer o passarinho na gaiola.
O fogão cada vez mais apagado
e meus irmãos deixarem de ir à escola...

Depois era preciso "se mudar";
um homem trouxe escrito num papel
que minha mãe, ao ler, pôs-se a chorar...

Era Natal e minha mãe, descrente,
saindo às ruas, qual Papai Noel,
foi dando os filhos todos de presente...

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           A ALMA DA PEDRA
 
Longa pesquisa. E o mestre hindu descobre
que existe uma fadiga nos metais;
que o descanso renova, do ouro ao cobre,
o reino singular dos minerais.
 
Eu também sinto que a matéria encobre
estranhas vibrações emocionais.
É que a pedra tem alma, simples, nobre,
sonhando evoluções espirituais.
 
E a alma da pedra imovel é a energia
que evolui, na ilusória letargia,
entre seres gigantes e pigmeus.
 
E sonha, nos milênios que a consomem,
ser um cacto que sonha ser um homem,
ser um homem que sonha ser um Deus.
 
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ESTRELA DA MANHÃ
 
Estrela da manhã que resplandece
no céu espiritual de minha vida,
vislumbro em seu olhar a mesma prece
que envolve ao longe a solitária ermida.
 
Brilha no azul. Porém quando escurece,
não passa de uma lágrima perdida
na imensidão da noite que aparece,
de estrelas fulgurantes, revestida.
 
E, levando meus sonhos noite afora,
eu posso vê-la ainda ao sol nascente,
quando as estrelas todas vão embora.
 
Pois só você, estrela entristecida,
não tem repouso e brilha suavemente
no céu espiritual de minha vida.
 
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         AMOR ADOLESCENTE
 
Esta noite, meu bem, foi tão comprida
e tão sem graça foi a madrugada,
que eu senti que você é minha vida
e a vida sem você não vale nada.
 
Mas é tarde demais. A despedida
é como a pedra que já foi lançada:
mesmo partindo da pessoa amada,
nunca mais poderá ser recolhida.
 
Tudo acabado: os sonhos que sonhei,
seu amor, seu carinho e seu desvelo...
E esta noite, meu bem, foi tão comprida,
 
que dei graças a Deus quando acordei
e percebi, após o pesadelo,
que entre nós dois nunca houve despedida.
 
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A FACE DE CRISTO
 
Quantas faces eu vejo resumidas
na face do maior dos sonhadores:
a face calma, em horas repartidas
com pequenos e humildes pescadores;
 
A face de doçura, sem rancores,
de Cristo entre crianças distraídas,
e, depois, perdoando os pecadores,
transformados em almas redimidas;
 
A face de uma dor imensa e crônica,
perpetuada no lenço de Verônica
e no perene símbolo da cruz.
 
E a face de um encanto jamais visto,
que sonhamos um dia ver em Cristo,
no reino sereníssimo da luz.
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