No primeiro semestre de 2014 a UBTN (União Brasileira de Trovadores - diretoria nacional) levou a efeito em São Paulo a 1ª CONAPREST=Convenção Nacional de Presidentes Estaduais da UBT. Seis presidentes estaduais da entidade: Flávio Roberto Stefani - Rio Grande do Sul, Arlindo Tadeu Hagen - Minas Gerais, Renato Alves - Rio de Janeiro, Ari Santos de Campos - Santa Catarina, Maurício N. Friedrich - Paraná e Myrthes Spina de Moraes - São Paulo se reuniram com a Presidente Nacional, Domitilla Borges Beltrame e com o Secretário Nacional, José Xavier Borges Junior para discutir, votar e deliberar sobre diversos assuntos. Antes disso, fora formada um "Grupo de Trabalho Oficina", composto de oito nomes: Antonio Augusto de Assis, Elisabeth Souza Cruz, Héron Patrício, Gilvan Carneiro, José Lucas de Barros, José Ouverney, José Valdez de Castro Moura e Nilton Manoel, para elaborarem sugestões que justamente foram postas em discussão e votação durante a CONAPREST.

     De minha parte, envie todas as sugestões que achei viáveis. Aprovadas ou não (a maioria creio que não), mesmo assim faço questão de tornar públicas as ideias que encaminhei, ideias estas que estão abertas para receber críticas ou apoios, no espaço reservado aos comentários.  Eis, abaixo, o que enviei à UBTN:


 
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À UBT NACIONAL, com os devidos pedidos de desculpas, caso tenha me excedido nas sugestões e “avançado o sinal”.
Queira, por favor, desconsiderar tudo que for inapropriado.
Pindamonhangaba, 18 de abril de 2014
 
JOSÉ  OUVERNEY
 

 

SUGESTÕES DE ALTERAÇÕES

 
          Visando uniformizar os procedimentos nos julgamentos de concursos promovidos pela UBTN, estamos sugerindo a alteração de alguns pontos que geram dúvidas entre os membros julgadores que, ao receberem as trovas para avaliar, já deveriam receber também o modelo de um roteiro a ser seguido.
          Considerando que a Trova Literária é um gênero poético popular, porém, com alguns itens que suscitam dúvidas, o objetivo é flexibilizar, ampliar o leque de alternativas, facilitando o entendimento, não só por parte do trovador iniciante mas também dos veteranos que, muitas vezes, têm dúvidas como qualquer outro.
 

NO  TOCANTE  À  MÉTRICA

 
          Considero o “Decálogo de Metrificação” de Luiz Otávio perfeitamente de acordo. Talvez no artigo 3, onde se lê “não se deve usar suarabacti”, ou seja, desconsiderar a consoante muda na contagem das sílabas (advogado, ignorante, adjacente, etc), recomendo aceitar ambas possibilidades, como, aliás, já vêm sendo aceitas em boa parte dos concursos.
          Entendo, também, que deveria haver menor rigor por parte dos membros das Comissões Julgadoras ao analisar elisões, procurando evitar apenas as que formem som duro ou desagradável, ou torne frouxo o verso, no caso de duas vogais átonas.  Sempre que uma for tônica, que se faça de tudo para evitar vetos.  A melhor política é pronunciar o verso em voz alta e fazer prevalecer o bom senso, quando a elisão gerar dúvida.  Se conseguirmos efetuar a pronúncia em apenas um som, então se faz a elisão.  Se não conseguirmos, então nada feito.
          Aceitar a forma apocopada “pra” também nas trovas “não humorísticas, desde que não firam a estética do verso.
 
ARGUMENTO =  a forma apocopada “pra” evita cacófatos: para ir (pra ir), para a lama (pra lama), para entes (pra entes), para odiar (pra odiar).  Vejam que interessante o exemplo na trova abaixo, em que a forma apocopada torna possível utilizar repetidamente a mesma palavra na sequência:
Velho palhaço me para,
pra me dizer algum chiste,
mas, sem pintura na cara,
até seu sorriso é triste...
 
ARGUMENTO = seria uma forma de eliminar muitas e muitas dúvidas que ainda hoje atormentam as cabeças dos trovadores.
 

NO  TOCANTE  À  RIMA

 
- Aceitar rimas até então questionadas, desde que a pronúncia demonstre a semelhança.  Exemplos:  trauma/alma, céu/anel, grau/geral, Brasil/fugiu, veloz/após, área/contrária, capuz/urubus, óleo/portfólio, estéreo/mistério, etc.
- Aceitar termos de outros idiomas, cuja sonância seja semelhante:  stress/pés, derrete/Internet, Abbud/virtude, look/eduque, know how/legal, etc.
 
ARGUMENTO = se algumas palavras que contêm rimas imperfeitas são aceitas, tais como:  beijo/desejo, boca/pouca, trouxe/doce, por que não aceitar as sugestões acima citadas?  Aliás, acho que mais correto até seria desconsiderar estas e aceitar aquelas.
 

OUTRAS SUGESTÕES, EM RELAÇÃO A CONCURSOS

 
- Padronizar o prazo final para recebimento das trovas para concursos, considerando como data-limite não o carimbo dos Correios mas a que constar no regulamento do concurso. A cada Comissão Organizadora cabe dar mais alguns dias de tolerância, ou não.
- A fim de não prejudicar a qualidade das trovas enviadas, através de uma pré-seleção feita às pressas, envolvendo centenas e centenas de trabalhos, dividir essa pré-seleção em pelo menos três datas, à medida que as trovas forem chegando, como, aliás, já é feito por algumas unidades.
- Não enviar mais de cem trovas para julgamento.
- Conceder aos julgadores um prazo de pelo menos três semanas para avaliações, observações e consultas.
- Evitar pedir aos membros das Comissões Julgadoras para que atribuam nota a todas as trovas.  Além de muito cansativo é injusto, pois forçosamente acaba nivelando muitas composições de valores diferenciados.
- Valorizar mais os resultados por ordem de classificação e não alfabética. Tal medida serviria não só para colocar em destaque os melhores trabalhos como também para avaliar a efetividade das comissões julgadoras, em relação a manutenção das mesmas em futuros concursos.
- Recomendar aos membros julgadores que não eliminem uma trova por motivo de elisão ou concordância, sem antes consultar outros membros ou a própria coordenadoria dos trabalhos.
- Diversificar ao máximo, de ano para ano, os membros das Comissões Julgadoras, convidando não apenas dirigentes da UBT mas associados em geral e até mesmo não associados, como é caso de trovadores de alto nível, hoje afastados de concursos mas dispostos a colaborar.
 
OBS:  mesmo que, à primeira vista, não pareça, os dois cuidados que irei agora sugerir aproximam as pessoas e fortalecem os laços da fraternidade abraçada pela UBT:
 
1º) À Comissão Organizadora que dispuser de “voluntários” suficientes, por ocasião dos festejos recomendo formar uma equipe (vide o exemplo de Maringá) para buscar e levar os visitantes premiados nas rodoviárias e aeroportos, prioritariamente nas capitais e cidades de grande porte.
2º) Providenciar, após o encerramento das atividades oficiais, para que os trovadores que irão viajar horas mais tarde, e já com hotel fechado, não fiquem desalojados e perambulando, acolhendo-os na residência de um trovador mais próximo e que se disponha a tão humanitária missão.

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(Este segundo envio repete várias citações do primeiro e acrescenta outras.)
 
 MANUAL OFICIAL DA TROVA - MINHA AVALIAÇÃO
(prefiro ser criticado por excessiva franqueza do que ser exaltado por cerrar fileiras em torno de algo que não me satisfaz. Daí a razão de minhas observações construtivas)
 
          Se a Trova é um gênero poético popular, porém, com muitas regras, por que não amenizá-las, flexibilizá-las? O objetivo é trazer mais gente até a Trova.
 
          Se a métrica é um problema, o “calcanhar de Aquiles” desse problema é a elisão.  Quanto mais pudermos aceitar duas interpretações, tanto melhor, considerando a “quase subjetividade” que envolve ditongos, hiatos ou algo parecido.
 
          A própria rima, que parece algo tão simples, gera desconforto. Algo que confunde a cabeça do iniciante: se a rima é formada por sons semelhantes, por que proíbem incauto/exalto, alma/trauma, céu/hotel, vária/área, Abbud/virtude, dez/pés, abril/caiu, paz/gás, mistério/etéreo, etc. (que possuem sons semelhantes)?  E permitem beijo/desejo, mágoa/água, louca/boca e até fosse/trouxe. Penso que deveria ser permitido tudo, inclusive a rima com termos estrangeiros, tipo: viés/stress, internet/promete, facebook/truque, very good/estude, show/começou.  Há uma trova linda que diz assim:
Teu beijo, pela internet,
vem sempre com tal calor,
que qualquer dia derrete
meu pobre computador!
A. A. de Assis – Maringá/PR
 
          Estaríamos aumentando o vocabulário à disposição e facilitando a compreensão.
 
          Segundo o autor Francisco Nogueira, autor de “Como Fazer Trovas”, “rima é eco, som reproduzido. E um som, embora o possamos ler em pautas musicais, é coisa que a gente ouve, jamais vê.”  A.A. de Assis não fala sete sílabas, fala sete sons. Então, se a sonoridade é a mesma: el/eu, il/iu, az/ás, ós/oz, não vejo nada contra. Já beijo/desejo, boca/louca, fosse/trouxe, se fossem recusados, seriam facilmente aceitáveis.
 
          A palavra “vo/o”. Sobre ela, eu e Assis debatemos firmemente. Em minha opinião não há como considerar como uma só sílaba. É o mesmo caso de Sa/a/ra. Se eu considerar voo como uma só sílaba, irei pronunciar “vô” ou então “vou”. Isso mexeria tanto na métrica quanto na rima. E também vale para “em/jô/o” e outros. Cheguei mesmo a fazer uma trova ilustrativa de como ficaria:
Malas feitas, conferidas,
pronto: dezembro chegou!
Rumo às férias merecidas,
vou reservar o meu voo!
 
          Aliás, o Decálogo determina “vo/o”, separado, e em todas as trovas até hoje premiadas, contendo essa palavra, os autores a separaram. Tenho “n” exemplos.
 
          Também não acho “boa política” radicalizar em torno da expressão “Trovadorismo”. Prefiro (e não vou deixar de utilizar) “Trovismo”. O primeiro nos remete à Era Medieval e causa ainda mais confusão, uma vez que a nossa UBT, até hoje, não conseguiu sensibilizar os autores de dicionários a atualizarem a definição do termo. Não bastara isso, ainda gera outra confusão com trovador/seresteiro, tão citado em várias melodias do cancioneiro.  Lembro-me que uma vez eu e o Valdez, no Dia do Trovador, fomos convidados a comparecer à TV Aparecida. Quando a funcionária agendava a entrevista comigo, perguntou-me que instrumentos musicais levaríamos (sic).  Penso até que a trova literária brasileira nada tem a ver com cantigas de escárnio, de amigo e outras de épocas remotas.
 
          Também sou a favor da utilização da forma apocopada “pra” nas trovas de cunho lírico/filosófico e afins.  Assim como “a alma”, “nossa alma”, etc. deveriam ser oficializados como de dupla aceitação: com e sem elisão. Do modo como está, nunca sabemos quando uma comissão avaliadora eliminará nossa trova, baseada nesse item.
 
          Em resumo = penso que devemos ser mais tolerantes e menos proibitivos, tanto na elisão quanto na rima. Penso que todas as trovas dos futuros concursos deverão ir sendo analisadas, para as devidas atualizações anuais no Manual. Já pensando nisso, anotei algumas – em minha opinião – irregularidades ocorridas em trovas premiadas em concursos no decorrer de 2013, bem como o que eu tacho de acertos. Senão vejamos:
 
ALGUNS ERROS E ACERTOS EM TROVAS PREMIADAS, CONCURSOS DE 2013:
 
          Nos Jogos Florais de Porto Alegre eu notei pelo menos duas:
 
5º lugar
Imagens belas ou não
há vários jeitos de vê-las;
nas poças d’água do chão,
uns vê/em lama, outros estrelas.  (oito sílabas)
OLYMPIO COUTINHO - Belo Horizonte MG
 
Tomou Viagra o velhinho,
e no vinho se esbaldou:
foi pra cama com/ um brotinho,  (oito sílabas)
tentou...tentou...e...enfartou!...
JOSÉ VALDEZ DE CASTRO MOURA - Pindamonhangaba SP  (MEspecial)
 
          Esta premiou em Natal/RN:
 
12° - WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ - Curitiba/PR
Ao palmilhar meu caminho
de bênção em forma de dor,   (oito sílabas)
Deus mostra o valor do espinho
como prenúncio de flor.
 
 
HÁ TAMBÉM O EXEMPLO INVERSO. DO QUE PODERIA SER ERRO MAS NÃO É.
 
TROVAS QUE OBTIVERAM ACEITE, E QUE ACHO VÁLIDO:
(coloco também alguns exemplos de flexibilidade)
 
INTERSEDES CURITIBA
2º Lugar   (nesse caso o Manual manda elidir)
Em meio ao bélico impasse,
na escuridão de horas más,
que bom se o homem pensasse
quão branco é o túnel da paz!
Maria Helena Oliveira Costa – UBT-Ponta Grossa
 
2º lugar: DARLY O. BARROS – São Paulo (Foi aceita consoante muda, sem elidir, e deveria ser aceita sempre)
Rasgando, à enxada, um chão duro,
nem sob exaustão, se entrega:
há que prover o futuro
de quem, no ventre, carrega...
 
JOGOS FLORAIS DE PORTO ALEGRE
 
1º lugar
Reparte a água da fonte
da tua sabedoria...
Vislumbra um novo horizonte
quem outra sede sacia...
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA - Bauru SP
 
2º lugar
Tua carta de ternura,
quando a dor em mim impera,
é um copo de água pura
matando a sede da espera.
JOSÉ VALDEZ DE CASTRO MOURA - Pindamonhangaba SP
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JOGOS FLORAIS DE NOVA FRIBURGO
2º Lugar
O meu sonho sonha à beça
por teu amor, meu amor,
e cumpre qualquer promessa...
e paga o preço que for!
EDUARDO A.O. TOLEDO - Pouso Alegre– MG
3º Lugar
Se eu tenho algum contratempo,
pago o preço que me apraz
pois sei que as rodas do tempo
nunca giram para trás.
DJALDA WINTER SANTOS -  Rio de Janeiro-RJ
M. HONROSA
(o típico caso de dupla aceitação)

O truque falha...vermelho,
o mágico diz que o enguiço
é culpa do seu coelho
que ainda é novo no serviço...
GILVAN CARNEIRO DA SILVA - São  Gonçalo – RJ
 
            Peço desculpas pela franqueza na exposição dos meus pontos de vista mas penso que se não retratarmos o que acreditamos ser o melhor, de nada adianta fazermos parte de comissões desse porte. E agradeço pela oportunidade.
 
          Cordialmente, em 21 de março de 2014
 
 
José Ouverney – Pindamonhangaba/SP

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OBSERVAÇÃO = na reunião da CONAPREST estas sugestões, como as de outros amigos, foram apreciadas e votadas. Uma que foi aprovada, por exemplo, é a que passa a aceitar o "pra" nas trovas "não humorísticas", doravante.