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A U.B.T. E A “U.T.B.”

(OBS: o preâmbulo foi extraído do livro “O Trovismo”, do historiador Eno Teodoro Wanke, a quem a Trova muito deve, pelo seu incansável trabalho de resgatar a História da Trova. Eno faleceu em 2001. Os versos que compõem o Estatuto nos foram gentilmente enviados pelo magnífico trovador Edmar Japiassú Maia – RJ)
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     Não bem uma seção, nem sequer uma nova entidade, mas sem dúvida derivada do GBT, foi o GTB – o “Grêmio de Trovadores do Bar”, como eles se chamavam. O número de sócios era variado, e identificado apenas pelo amor ao copo, de preferência cheio de bebida alcoólica. Um de seus maiores representantes era Colbert Rangel Coelho, que, segundo o Boletim no. 1 do GBT já em 1961 tomara a iniciativa de “decorar bares com trovas (em São Paulo)”.

     O Grêmio de Trovadores do Bar foi fundado conforme seu pitoresco Estatuto, no ano do centenário de Olavo Bilac (1965). E o caso era sério. Soube de dois getebistas (ou utebistas, como depois se chamaram) que faleceram devido aos excessos alcoólicos. Parece que a cidade mais importante da entidade era Juiz de Fora, Minas, onde a turma boêmia era bastante unida, tanto assim que, quando a trova humorística começou a despontar nos Jogos Florais, foi o de Juiz de Fora que se lembrou do tema “bebida” nos seus 5ºs. Jogos Florais, em 1967, para trovas humorísticas do concurso.

     Acompanhando o movimento geral de siglas trovísticas, o GTB se transformou, em 1966, na UTB (União de Trovadores do Bar), quando o GBT se tornou UBT. A UTB deixou um curioso documento de sua existência, o Estatuto da UTB, edição sem data, reeditado por ocasião da morte de Colbert, na revista “O Lince”, de Juiz de Fora, no. 1503, de outubro de 1975. O livro é todo feito em trovas – e em quadras entrelaçadas – algumas verdadeiramente engraçadas, fazendo jogos de palavra com bebidas, marcas de bebida, etc. Seus autores são oito: Alves Costa, Colbert Rangel Coelho, Dormevilly Nóbrega, Hegel Pontes, João Rangel Coelho, José Carlos de Lery Guimarães, Mário Peixoto e Roberto Medeiros.

     Diz a introdução à transcrição no “O Lince”, lamentando a morte de Colbert: “O último papo foi no Rio – dia 06 de outubro, e falou-se sobre uma possível reedição do Estatuto da UTB – livro disputado, os exemplares esgotados, distribuídos entre amigos que os guardam como preciosidade. Muitos outros gostariam de conhecer o humor dos versos. Sua sutileza. Colbert foi um dos oito a escrevê-lo. Ele e João Rangel estariam interessados. Mário Peixoto também. Conversariam com os outros quando viessem a Juiz de Fora. Naquele dia estava acamado: “Os médicos acham que estou com hepatite”. Era do fígado, mas não hepatite...

     Faleceu logo depois. Acho que “O Lince” tem razão. Impossível fazer apenas uma exegese do fascinante documento sem destruir sua originalidade. O livrinho, de 40 páginas, abre com a frase lapidar: “In vino veritas”.  Bem, vamos ao Estatuto?

 (EM TEMPO: o precioso material nos foi enviado pelo Magnífico trovador do Rio de Janeiro, Edmar Japiassú Maia, a quem o site registra os mais intensos agradecimentos).

                  E S T A T U T O     D A    U. T. B. – 1ª PARTE

Considerações Preliminares

Aperitivo:
No centenário glorioso
de Mestre Olavo Bilac,
pondo de lado o repouso
e a trova e a pinga em destaque,

uma turma de opinião,
sem temer broncas no lar,
resolveu fundar a UNIÃO
DOS TROVADORES DE  BAR.

E para efeito legal,
nosso Estatuto prevê
que a sua razão social
tenha por sigla U. T. B.

Mas para ser utebista
no exercício das funções,
é preciso ter em vista
as seguintes condições:

Cálice 1º -
Gostar de trova e bebida,
sorvendo-as com sede nova:
se a trova é o vinho da vida,
o vinho é a vida da trova.

Trago 1º -
Corpo são e mente sã,
é o nosso escopo comum;
beber até de manhã
para quebrar o jejum.

Trago 2º -
Beber, com sede incontida,
embora amargue a tragada,
pois em verdade a bebida
é sempre melhor qui...nada.

Cálice 2º -
Vencer faz parte da roda
e é tudo o que se deseja,
pois não pode pedir soda
quem vive só...da cerveja.

Trago único: -
À noite, mandando brasa
e abusando do consumo,
achar o rumo de casa
navegando em “Nau-Sem-Rumo”.

Cálice 3º -
Estando a gente embebida
numa conversa de bar,
não ter medo de “batida”
da gestapo familiar.

Trago forte: -
Não temer qualquer pirraça,
ou castigo de orixá:
quem tem bafo de cachaça
sempre abafa um bafafá.

Cálice 4º -
Exaltar em verso e prosa,
bebendo que nem gambá,
o famoso Rum Barbosa
e o saudoso Aniz Murad.

Trago único:-
O boêmio de pernoite
escreve um trecho feliz,
no quadro negro da noite,
com cigarro em vez de giz.

Cálice 5º -
Saber ouvir e falar
e quando deva fazê-lo,
pois quem fica a run...minar
merece ficar no gelo.

Trago único: -
Protestar, mas sem alarde,
se o garçom for negligente:
a cerveja que vem tarde
é uma “fria” que vem quente.

Cálice 6º -
Mostrar ser bom conselheiro
nas crises sem solução;
seja falta de dinheiro,
seja morte de ilusão.

Trago 1º -
E pressentindo em perigo
um companheiro de bar,
saber ser o mesmo amigo
que gostaria de achar.

Trago 2º -
Fugindo os bens do passado,
chegando os males de agora,
quem tem amigos ao lado
chora menos, quando chora.

Trago 3º -
Buscar no fundo da taça
o consolo que consiste
em suavizar a desgraça,
mas só com...”Lacrima Christi”.

TIRA-GOSTO –

NÃO PODERÃO FAZER PARTE
DESTA UNIÃO OS SUJEITOS
QUE, À MINGUA DE QUALQUER ARTE,
NOS TRAGAM ESTES DEFEITOS:

Canapé 1º -
Não ter amor à poesia,
o que é pecado mortal.
Quem pratica essa heresia
é sempre eunuco mental.

Mordida Única:-
Quando o Sol no céu se apaga,
a poesia se renova
e a nossa U.T.B. se embriaga
nos quatro versos da trova.                                                                             

Canapé 2º -
Achar que tendo riqueza,
de nada mais necessita:
o dinheiro, em nossa mesa,
não é cartão de visita.

Vinho Único: -
Paira além e muito acima
das fortunas do universo,
a pérola de uma rima
no estojo simples de um verso.

Canapé 3º -
Viver na vida empacando
por burrice, por asneira.
-A mula teima e teimando
vai ser mula a vida inteira.

Mordida Única –
O muar que pague a esmo
sem pôr banca em nosso banco:
-O burro branco nem mesmo
pagando “Cavalo Branco”.

Canapé 4º -
Ser um “carne-de-pescoço”,
tão pão-duro, tão mesquinho,
que a despeito de ser grosso
vai saindo de fininho.

Torresmo Único: -
O unha-de-fome na mesa
-todo mundo é testemunha-
para fugir à despesa,
vai comendo a própria unha.

Canapé 5º -
Ser partidário vulgar
de uma idéia sem grandeza,
que em vez de copos virar,
prefere virar a mesa.

Palitada: -
Quem exagera na vida
pelo partido que tem,
fica de cara partida
ou parte a cara de alguém.

ESTATUTO  DA  U.T.B.  -  Parte 2

PARA SEREM APROVADAS,
SEM QUE SEJAM DEBATIDAS,
ESTAS NORMAS SÃO TRAÇADAS
EM TRAÇADOS DE BEBIDAS.

APÓS AS PRELIMINARES
DO ÓRGÃO CONSTITUINTE,
PARA VIG...ORAR NOS BARES,
NOSSO ESTATUTO É O SEGUINTE:

DA  SEDE

Garrafa 1ª -
Jamais vivendo à mercê
de qualquer teto ou parede,
a Sede da U.T.B.
depende sempre da sede.

DOS OBJETIVOS

Garrafa 2ª -
Elevar no pensamento
as quadras boas da vida,
concedendo abatimento
se a quadra for com...batida.

Copo 1º -
Concorrerão para isso,
em qualquer dia ou lugar,
pinguços sem compromisso,
os d’aquém e d’além Bar.

Ressaca: –
Baixa o moral, sobe o câmbio,
há dissabores no lar,
mas permanece o intercâmbio
dos TROVADORES DE BAR.

Gole 1º -
Aplaudir todo concurso
promovido em qualquer praça,
quando houver pouco discurso
e muita trova e cachaça.

DA DIRETORIA

Garrafa 4ª -:

Copo 1º -
Se ser mandado desonra
este grupo irreverente,
será Presidente de Honra
o nosso uísque Presidente.

Gole 1º -
Tendo a bebida por guia
e a trova por ideal,
em vez de Diretoria
todo mundo apita igual.

DO CONSELHO CONSULTIVO

Garrafa 5ª -:

Copo 1º -
Sob até pena de multas,
se meter o seu bedelho,
o Conselho de Consultas
não dará nenhum conselho.

Gole Único –
Será porém consultado
o Conselho Consultivo
sobre o preço do traçado
e o valor do aperitivo.

DO CONSELHO FISCAL

Garrafa 6ª -:
Cumpre ao Conselho Fiscal
punir sem pena o desplante
de todo sócio anormal
que beber refrigerante.

Gole Único :
Fiscalizar, outrossim,
entre os ônus que recebe,
o peru de botequim
que enrola, enrola e não bebe.

DOS  SÓCIOS

Garrafa 7ª -:

Copo 1º -
Em nossas hostes milita
o sócio que não reluta
em cultivar a birita
que deixa a gente biruta.

Gole 1º -
Cairá nas nossas graças
aquele que, nas tabernas,
após beber quatro taças,
num quatro cruzar as pernas.

Gole 2º -
E que rimar quatro versos
para serem aprovados
por quatro sócios diversos,
mas que não sejam quadrados.

Classificação

Copo 2º -
Categorias previstas:
FUNDADORES , CONSTITUINTES,
DUREX, PARAQUEDISTAS,
EX-FUTUROS, CONTRIBUINTES.

Gole 1º -
Serão sócios FUNDADORES
os que forem mais argutos,
os pinguços precursores
das normas dos Estatutos.

Gole 2º -
O DUREX é o que nos ronda
e embora não tendo assento
em nossa mesa redonda,
logo adere ao movimento.

Gole 3º -
É sócio PARAQUEDISTA
o que aterra disfarçado
e em circunstância imprevista,
sem que seja convidado.

Gole 4º -
EX-FUTURO é o sócio...quase,
o sem futuro confesso,
excluído por não ter base,
mesmo antes do seu ingresso.

Gole 5º -
O CONTRIBUINTE consiste
em ter desprezo à avareza:
é todo aquele que insiste
em pagar toda a despesa.

DO  CORPO  SOCIAL

Garrafa 8ª -

Copo Único:
Entrarão, sendo aprovados,
os novos sócios aceitos
nos inúmeros traçados
de Obrigações e Direitos.

DOS DIREITOS E OBRIGAÇÕES

Copo 1º -

Constituem Direitos:

Gole 1º-
Protestar, subindo à mesa,
sem cometer quaisquer faltas,
se o garçom desce à baixeza
de apresentar contas altas.

Gole 2º -
Se não houver outro jeito,
ao UTEBISTA apertado
é reservado o direito
de ir direto ao reservado.

 
CONSTITUEM  OBRIGAÇÕES

Copo 2º -:
 
Gole 1º -

Topar tudo, calibrado,
sete dias por semana;
dar vivas ao Delegado
toda vez que entrar em cana.

Gole 2º -
Não ser chato com mania
de bancar o inteligente...
Quanto mais copo esvazia,
mais enche o saco da gente.

DA ELIMINAÇÃO OU  DESERÇÃO

Copo 1º -
Quem deixar de ser amigo
desertando das noitadas,
receberá, por castigo,
as seguintes garrafadas:

Garrafa de Xarope:-
Terá seu nome apagado
dos bordões de nossa lira
e o retrato publicado
nos jornais de Cambuquira.

Garrafa Vazia:-
Ao ser expulso ou suspenso,
como castigo será
confinado em São Lourenço,
Caxambu ou Araxá.

Garrafa Térmica:-
E o desertor, no desterro
a que estiver condenado,
receberá, por seu erro,
três trovas de pé-quebrado.

Garrafa Partida:-
Sob o peso das vinditas,
para lavar nossas mágoas,
as trovas serão escritas
em papel de linha d’água.

Caco Único:-
Para abrir a choradeira,
nas noites de punição,
só pode haver “abrideira”
depois de aberta a Sessão.

Garrafa Purgativa:-
Na lei-seca que o socorre,
deverá, sem mais embargo,
ser forçado a tomar porre
de um tonel de “sal amargo”.

Casco escuro:-
De tal pena, a aplicação
há de ser a mais soturna
e, para tanto, a Sessão
será fúnebre e noturna.

Coice 1º -
E sendo noite de luto,
nem por artes do capeta
deixaremos, um minuto,
de beber cerveja preta.

Coice 2º -
Sem sermão, com cantochão,
por questão de compaixão,
todos então chorarão
a deserção de um irmão.

Coice 3º -
Por castigo, o proponente
que trouxe quem não devia,
embora a mesa freqüente,
merece estar nesta fria.

Penúltima:-
Beber água mineral,
dizer dez trovas de ouvido,
publicadas como tal,
sem que nunca o tenham sido.

Respaldo Amargo:-
Durante a sessão inteira
em que o castigo se lavra,
beber água da torneira
-com licença da palavra-

DAS  HONRARIAS

Garrafa 9ª -:

Copo 1º -
Quem paga conta, de início,
independente de inquérito,
receberá, em comício,
diploma de “BENEMÉRITO”.

Copo 2º -
Por simples diplomacia,
quem não é bom bebedor,
mas paga o uísque do dia,
será nosso “AMBASSADOR”.

Copo 3º -
O vate que não se emenda
e sem trova se promove,
receberá a Comenda
de “VAT...69”.

Copo 4º -
Será um “Sócio-Remido”
o proprietário de Bar
“altamente” esclarecido
que a despesa não cobrar.

DOS RECURSOS FINANCEIROS

Garrafa 10ª -:
 Copo 1º -

Se a receita se definha
e há “vales” por todo lado,
recorrendo-se à “vaquinha”
ninguém será boi...cotado.

Gole único:-
Melhor dizendo, o dinheiro
será colhido na hora,
em novo ou velho cruzeiro,
sem apelo e sem demora.

DOS  FINS

Garrafa 11ª :-

Copo 1º -
Enquanto houver, na cidade,
bebida nos botequins,
nossa “uisquisita” entidade
não pode ter fim, nem fins.

Gole 1º -
Não pode um membro da turma,
por desfastio ou por graça,
aconselhar que se durma,
enquanto sobrar cachaça.

Gole 2º -
E nem por qualquer motivo,
se uma fraqueza tiver,
com voz de negro cativo,
telefonar à mulher.

DA  DISSOLUÇÃO

Garrafa 12ª:-

Copo 1º -
Se editarem algum Ato
e o grupo for liquefeito,
pode ser questão de fato,
jamais razão de direito.

Gole único:-
Será, se for dissolvido,
sua conta liquidada
e o ativo distribuído
à Burrice Abandonada.

INDISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS

Garrafa 13ª:-

Copo Cheio –
A primeira reunião
da Assembléia Memorável,
há de ser na ocasião
em que for aconselhável.

Goles diversos:-
Não falta, por outro lado,
motivo para a função:
mulher chata, feriado,
vida cara, promoção;

parente em casa encostado,
por ser grátis a pensão,
falta de carne de gado,
macumba, superstição;

galanteio caprichado
respondido a bofetão,
“papagaio” protestado,
desquite, separação;

Brasília, governo errado,
bafafá, revolução,
forró, mandato cassado,
dedoduragem, prisão;

renúncia de algum tarado,
sogra com língua de cão,
barnabé injustiçado,
bilhete-azul, demissão;

soneto de pé-quebrado,
dia-santo, procissão,
casamento, batizado,
testamento, extrema-unção;

filho moço transviado,
filha moça com paixão,
e tudo a ser exaltado
numa BEMEMORAÇÃO.

DAS INDISPOSIÇÕES GERAIS

Garrafa 14ª:-

Copo escorregadio: –
O bom pinguço releva
os insultos que recebe:
não conta os tombos que leva,
desconta os tragos que bebe.

Tombo 1º -
Para que não se bitole
uma trova bem bolada,
entre um gole e um outro gole
não se deve beber nada.

Tombo 2º -
Para fins de bebedeira,
um UTEBISTA suspende
a luta, na sexta-feira,
começando o seu “uísque..end”.

Tombo 3º -
Deixar propinas estraga
a nossa festa pagã.
A gorjeta de hoje paga
a bebida de amanhã.

Tombo 4º -
Se atacado de cirrose
e o mal no leito o detém,
é bom tomar uma dose,
enquanto a morte não vem.

COPO DE BORCO
E depois de beber tanto,
prevenindo qualquer mal,
o boêmio tem um santo
no infalível  SÃO...RISAL.

Juiz de Fora - MG
AUTORES:

Alves Costa
Colbert Rangel Coelho
Dormevilly Nóbrega
Hegel Pontes
João Rangel Coelho
José Carlos de Lery Guimarães
Mário Peixoto
Roberto Medeiros

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