Jorge Murad

     JORGE MURAD nasceu no Rio de Janeiro/RJ (antiga Guanabara) a 13 de abril de 1910, filho de libaneses: Murad Sallum Lasmar e Maria Antun Lasmar.  Foi ator, radialista, compositor, humorista, trocadilhista, foi um homem de rádio, televisão e teatro com pleno destaque, além de excelente trovador. 

     Como se não bastara, foi também jogador de futebol, dos bons, tendo jogado com o célebre Leônidas da Silva, o "Diamante Negro". Como compositor teve inúmeras melodias carnavalescas de sucesso. No rádio manteve durante 28 anos o programa "Pensão do Salomão".  No cinema, trabalhou em filmes como "Alô, alô, Brasil" e "Estudantes", ao lado de famosos comediantes. Trabalhou em mais dez deles. Livros, deixou cinco:  "Arak-said!", "Salomão a Varejo", "Anedotas de Papagaio', "Humuradas" e "Anedotas da Guerra'.

     Faleceu em 25 de abril de 1998. Era irmão de Anís Murad, Magnífico Trovador.  Como se nota, uma família com a arte no sangue.

 

TROVAS  LÍRICAS E FILOSÓFICAS



A vida é lindo presente

que a gente ganha ao nascer,

mas, sem querer, de repente,

nós temos que devolver...

A vida é um drama em três atos,

que se representa a esmo,

variam cenas e fatos,

mas o fim é sempre o mesmo.

Quanto tipo, quanta ideia

o artista, em cena, esmiúça.

Quanta gente na plateia,

a quem cabe a crapuça...

Esperança - céu nublado,

no nordeste, os bois ao léu;

o sertanejo ajoelhado,

de mãos postas para o céu.

A seca traz angustiado

o sertnejo sem paz,

mas a chuva, ao favelado,

a mesma angústia lhe traz.

A saudade prova então

que tem força como quê:

faz tremer a minha mão,

quando escrevo pra você.

Guardo a saudade - uma flor,

plantada no meu jardim.

Trago a saudade, uma dor,

cravada dentro de mim.

Minha mãe, que me alumia,

e para o bem me conduz,

tem o nome de Maria,

como o da mãe de Jesus.

Mil amigos - tão pouquinho,

tão pouco que não se sente;

e um inimigo, sozinho,

representa tanta gente...

Na longa noite vazia,

esta angústia me sufoca,

aumenta minha agonia...

... e o telefone não toca!

Teu beijo foi a medalha

de mérito, com louvor,

que eu ganhei nesta batalha,

de conquistar teu amor.

Você sabia, criança,

como se faz a jangada?

Cinco toras de esperança,

muita coragem... mais nada!

Tu chamas isto de vida,

vivermos a vida assim?

Eu perto de ti, querida,

e tu tão longe de mim?

Se vivo assim como vivo,

com quem não deva viver,

então não vivo, convivo,

a fim de sobreviver.

Nova Friburgo!  És o altar

da catedral da poesia,

onde a gente vai rezar

as trovas de cada dia.

Mais bela que a Riviera,

mais linda que os Pirineus:

Teresópolis! - Pudera:

ali tem dedo de Deus!

Meu bem, da tua janela,

não jogues os teus beijinhos,

que o vento, sem mais aquela,

espalha-os pelos vizinhos...

Diga até logo, querida,

nunca um adeus por lembrança:

adeus - é uma despedida...

até logo - uma esperança!

Amiga sincera e franca,

companheira até na dor,

saudade é a bengala branca

do pobre cego de amor.

HUMORÍSTICAS

O teu modo de viver,

criticá-lo a mim não cabe:

não sei, não quero saber,

tenho raiva de quem sabe...

Você - terceira pessoa?

Parece até brincadeira!

Para mim - ora, essa é boa -

você - é sempre a primeira.

Eu, que já fui coroinha,

em alto e bom som proclamo:

não troco qualquer raínha

pela "coroa" que eu amo...

Se o amor é um sacrifício,

não duvides nem um pouco:

iria até para o hospício,

para amar-te como um louco.

Os teus cílios, tua cor,

tuas unhas, teus feitiços,

e até mesmo o teu amor

são todos eles postiços...

Jóias desaparecidas

não se encontram, nunca mais,

mas as mulheres perdidas

a gente encontra demais...

Se amor se paga com amor,

como diz ditado antigo,

meu benzinho, por favor,

acerte as contas comigo!

Dançou um baião-de-dois                 (10º lugar em Sete Lagoas - 1982)

num forró a Dona Inês,

e nove meses depois

o baião era de três...

E o alfaiate explicou,

com palavras ressentidas:

- Já que o senhor não pagou,

tomarei outras medidas.

Um pau d'água renitente

diz, sobre o álcool: ora essa,

se ele mata lentamente,

não faz mal... Não tenho pressa.

Que a mulher tem duas caras,

isto não é mais segredo:

a primeira mostra às claras,

e a outra... de manhã cedo.

Peça por peça, uma artista,

na comédia, estuda à beça,

entretanto, na revista,

retira peça por peça...

No meio da rapaziada,

de cabeleira polpuda,

até a própria piada

é piada cabeluda...

Não há, no mundo, presente,

nenhuma coisa mais bela

que o que Deus, onipotente,

fez de uma simples costela...

- Estou esperando alguém!

Minha mulher me falou.

Pensei que fosse um neném,

mas era a sogra.  Michou!

Quando conto uma piada,

não há riso que resista,

porque a sogra, coitada,

é sempre a protagonista.

Um garoto esfomeado,

tirando um caqui da cesta,

exclamou compenetrado:

- Tomate metido a besta!

A piada é uma desgraça,

quando a graça não contém;

a gente até acha graça,

da graça que ela não tem.

A cara da dona Rosa

tem tanto pé-de-galinha,

que ela anda receosa

do galo lá da vizinha...

Sobre a cova abandonada

do corneteiro Clemêncio,

há uma corneta calada,

que tanto tocou silêncio.

Para uma moça bonita,

perguntou certo paquera:

- É senhora ou senhorita?

- Senhorita, eu?  Já era!

Se alguém me chamar de "pão',

apesar de pitoresco,

fico fulo e com razão:

pão só é bom quando é fresco.

Há sempre um televizinho

no lar da viúva Aimée;

mas já corre um burburinho

de que ela não tem TV...

Diz o freguês, distraído,

ao garçom - que é de veneta:

- Não deixei nada esquecido?

- Não, senhor!  Nem a gorjeta!

Fui contar à cozinheira

uma piada imoral

e ela me disse, fagueira,

que ainda faltava sal...

Um hospital de poesia

deveria ser montado,

assim para lá iria

o verso de pé quebrado...

- Vamos ao circo? - disseste,

mas o encontro não se deu,

pois o bolo tu me deste,

e o palhaço banquei eu...

Quando passas no mercado,

um fruteiro que tem gosto,

olha todo embasbacado

para as maçãs do teu rosto.

Minha boca é a fechadura,

e o teu beijo a chave certa;

só teu beijo, criatura,

me deixa de boca aberta.

Seja de noite ou de dia,

quando por mim você passa

logo eu digo: - Ave Maria!

Que moça cheia de graça!

Mexem contigo na rua,

piadas, ditos e graças,

mas a culpa é toda tua,

"mexes" demais quando passas.

Uma promessa - que é fogo!

eu fiz à Virgem Maria:

que, se eu ganhasse no jogo,

nunca mais eu jogaria...

Amor é como pipoca,

sossegado no começo,

mas se o fogo se lhe toca,

vira a gente pelo avesso.

Acredite quem quiser,

se o meu casório malogra,

eu abandono a mulher

e caso com minha sogra...

A noiva fez tal dieta

para casar-se, afinal,

que a sua turma, indiscreta,

jogou-lhe arroz integral!