Petrarca Maranhão - Manaus/AM

PETRARCA MARANHÃO, nascido em Manaus/AM,  filho de João de Albuquerque Maranhão e D. Laura da Cunha Mello Maranhão, formou-se Bacharel em Direito pela Universidade do Rio de Janeiro, turma de 1935. Entre outros cargos de suma importância, foi Procurador da República, de 1937 a 1945, em Natal/RN.  Inúmeros livros publicados, entre os quais:  "Trovas Doidas", "Sonetos Petrarquianos', "Samburá de Rosas', "Samburá de Urtigas" e "O Turbilhão".     Nasceu em 13 de abril de 1913 e faleceu em 05/05/1985. No Rio, residiu à Rua Farani, 61, aptº 505, em Botafogo.



Há muita gente infeliz,

por esta tolice imensa:

ou nunca pensa o que diz,

ou sempre diz o que pensa...

Não dês a ninguém o gosto

de ver pela tua face,

na tristeza do teu rosto,

o que em tua alma se passe...

Sobre a montanha da vida ,

raro se pode saber

se ainda se está na subida,

ou já se vai a descer...

Da vida que se renova

recolho a matéria prima

- com que faço minha trova...

- com que teço minha rima...

O relógio bate as horas...

Na igreja, repica o sino...

E só tu, Amor, demoras

a surgir no meu Destino!...

A glória é a ilusão de um bem...

nossa vida um simples ai...

o amor, um sonho que vem...

a morte, um sopro que vai...

Como vive tanta gente

de modo triste e inseguro

sem ver o bem do presente,

por só pensar no futuro! ...

Não te apresses. Que são danos

dentro da filosofia?

A vida, há milhares de anos,

recomeça todo dia...

Um paradoxo qualquer,

sempre da vida nos vem:

- quando a gente tem, não quer...

- quando a gente quer, não tem...

Se queres um bom conselho,

muito útil e bem pensado,

- nunca metas o bedelho

onde não fores chamado...

As almas de certa gente

se parecem com um porão:

por fora, - que luz candente;

por dentro, - que escuridão!

Por entre mil embaraços,

luto contra anseios vãos:

quero cair em teus braços,

mas nunca nas tuas mãos...

Se ela, afinal, com delícia

te deu a boca a beijar,

com um pouco mais de malícia

tudo o mais hás de alcançar...

Cômico é o mundo, não nego,

quando irônico insinua,

maldoso, que o amor é cego...

mordaz - que a verdade é nua...

Guarda escondido contigo

o amargor que te acabrunha:

não deixes teu inimigo

de teu mal ser testemunha.

Felicidade... esperança

de um bem que custa a chegar:

e, afinal, quando se alcança,

se vê fugir... escapar...

Muito boas as mulheres

nos são sempre como amigas;

mas cuidado se as tiveres,

um dia, como inimigas...

O amor é tal qual um rio

em caminho para o mar...

de repente faz desvio

para um rumo irregular...

Não se deve valor dar

às grandes coisas apenas...

Saibamos valorizar

principalmente as "pequenas"...

Ninguém é dono de nada.

E quem se conhece, quem?

Tudo é vaidade emproada

dos que se julgam alguém...

Eu pergunto, muito a medo,

quase a sentir-me um covarde:

- Nasceste por demais cedo,

ou fui eu que nasci tarde?

Nos recessos de minha alma

há dois seres bem diversos:

um que luta, sem ter calma,

outro, manso, que faz versos...

Não te queixes desta vida.

Nunca sabes com razão,

se a de quem com a gente lida

resiste à comparação...

A ventura é uma quimera

que estranhos caprichos tem,

pois vem quando não se espera,

quando se espera não vem...